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19 abril 2011

2ºS. 8ª Lição- Pintura e Desenho: Noção indiferenciada; Originalidade da Ideia

Holanda não se cansa de louvar o desenho. Para ele nada é mais difícil que o desenho
A sua defesa do desenho a partir do esquisso, como momento projectual e estrutural leva-o a valorizar o desenho por si só.
“vale mais um só risco (…) pela mestria de um valente desenhador, que uma pintura (…) cheia de muitas personagens” (PA, pag. 45)

O desenho é a “coluna” da pintura e não mero género da pintura, ideia que é confirmada pelo próprio, logo em seguida:
“E quem souber com uma pena bem desenhar, saiba certo que não somente é senhor de todos os géneros de pintura, mas que de todas as mais ciências ou ofícios deste mundo tem já sabido a mor parte (...)” [PA, pág. 87]

Holanda parece apresentar-nos uma noção abrangente de Pintura, o que pode ser facilmente confirmado no Capítulo 44º do Da Pintura Antiga. Aqui Holanda apresenta como primeiro género da Pintura, a pintura a gráfio, ou regrão ou estilo, instrumentos de desenho e de delineação. [PA pág. 87]
Se por um lado parece que a Pintura é um saber vastíssimo onde o “desenho a gráfio” se inclui como mais um género ou modo de pintar, diz também:
“O gráfio é o primeiro (…) O segundo instrumento e mais nobre e difícil é com a pena desenhar e lançar as linhas e perfil de toda a gravíssima ciência da pintura, e esta é a coluna desta arte.”
PA pág. 87]

Para Holanda, a “Pintura” tem um significado próprio e simbólico: é uma sabedoria vastíssima, com a capacidade de incluir em si todas as artes visuais possíveis, a arte do mosaico, o baixo-relevo, a escultura, a gravura e até numa precursora noção de design (forma e função) bem presente na sua obra através da inclusão de escudos, brasões, medalhas, divisas, alimárias, invenções de armaria, etc.

O denominador comum de todos estes tipos de "pintura" reside no desenho, enquanto mãe de todos as artes, mesmo aquelas mais recentes, como o design ou as ditas artes decorativas que Holanda cita. A valorização do desenho é típica da própria atitude renascentista. Diz Holanda em Diálogos em Roma, pela boca de Miguel Ângelo, falando acerca da nobre arte da pintura:
“Entenda bem nisto todo o homem que chegar aqui: o desenho, a que por outro nome chamam debuxo, nele consiste e ele é a fonte e o corpo da pintura e da escultura e da arquitectura e de todo o outro género de pintar e a raiz de todas as ciências. (...) E porque grande, mui grande, é a força do desenho ou debuxo, pode Messer Francisco d’ Ollanda pintar, se ele quiser, tudo o que ele sabe desenhar.” [DR, pág. 61-62]

Esta ideia que Miguel Ângelo defende, de que o desenho é fonte e corpo da pintura, vem ao encontro daquela que Francisco de Holanda defende no Da Pintura Antiga quando afirma que “o desenho é coluna da pintura,” [PA, pág. 87] mas é em Diálogos em Roma, pela voz de Miguel Ângelo, que Holanda desenvolverá uma ideia sempre presente na sua obra.
Esta imprecisão ou confusão voluntária de Holanda entre os termos Pintura e Desenho e na sua vasta aplicação a todas as artes, é tão flagrante que M. Lactâncio, nos Diálogos em Roma, questiona Holanda a esse respeito:
"Parece-me, disse M. Lactâncio, que senti a Francisco de Holanda numerar entre as obras da pintura, há pouco, a sepultura que, senhor Micael, esculpistes em mármore; e não sei como isto pode ser, que a escultura nomeeis por pintura."[DR, pág. 42]

A resposta de Holanda é conclusiva, e assumida em total comunhão com Miguel Ângelo. Defende que todos os ofícios que tenham arte, razão e graça, descendem da Pintura.[DR, pág. 42]





Algum tempo depois, no Ciência do Desenho, Holanda sente necessidade de clarificar a noção de pintura. Afirma que a noção de pintura tem sido muito mal entendida. A Pintura da qual Holanda fala e que tem esse poder de ser uma ciência universal, não é pintar nem desenhar, mas trata-se do Desegno. O Desegno, é um dom divino, existente no entendimento e Imaginação da criatura humana, à imagem do Desegno, “eterna sciencia increada”[1] existente no entendimento divino.
A causa de todas as artes e ofícios, diz Holanda é este Desegno sagrado existente no entendimento de Deus. E diz um pouco mais à frente que a glória desta arte não pertence a Apeles, nem a Miguel Ângelo nem a si próprio:
“(...) mas ao Dador e Inventor de todos os entendimentos, que é Deos (...) Assi que seja Elle por isto de infinita glória como merece louvado: e eu abatido como inutil que sou.”, [Da Ciência do Desenho- Fac-simile in Jorge Segurado- FranciscoD’ollanda. Lisboa: Edições Excelcior, 1970, pág, 139]



















O tema da Ideia tem obviamente influência platónica.

Apesar da rejeição que Platão faz da Imagem e do Artista, houve na filosofia neoplatónica uma tentativa de associar Ideia a Imagem.
As ideias da Geometria sempre estiveram ligadas à imagem, apesar de ser um conhecimento abstracto e objectivo, não pode existir sem imagens
Para Platão os artistas eram fazedores de imagens, três graus afastados da Realidade.
Há várias referências na Antiguidade que apontam para a ligação entre ideias e imagens, entre as Ideias de Platão e a Criação Artística.
Cícero refere como o escultor Fídias copiava a “imagem mental” da perfeição divina para criar as suas estátuas de deuses.
“E quando este artista trabalhava a criação de seu Zeus ou de sua Atena, ele não observava um homem qualquer, isto é realmente existente que ele pudesse imitar, pois era na sua mente que residia a representação sublime da Beleza.”
Cícero: Orator ad Brutum (II-9 e III-10)

Aqui o artista não é visto como mero imitador dos objectos do mundo sensível, mas sobretudo como artista criador que possuí no seu pensamento uma imagem interior, que ainda que não possa transmitir na íntegra para a obra de arte por si criada, contém em si uma beleza muito superior à da simples cópia da realidade sensível, uma vez que é apresentada no interior da mente do artista e não no exterior.
Assim sendo, o processo criativo não estaria sujeito aos enganosos orgãos dos sentidos, e a cadeia descrita no Livro X da Républica descrevendo a arte como cópia da cópia deixa de se aplicar a este caso. Podemos dizer que de alguma maneira se defende uma autonomia da arte face à realidade aparente.

Esta associação entre Ideia e criação artística confere ao artista uma superiorização, uma vez que o artista é aquele que está em contacto com o divino através do pensamento.
Plotino dirá que Fídias deu à sua estátua os traços com os quais o próprio Zeus teria aparecido se quisesse revelar-se ao nosso olhar. (Eneida, V, 8,1)




Estas referências da Antiguidade são fundamentais para o Renascimento

O pintor, tal como o filósofo ou o místico aspira a alcançar uma elevação metafísica e transcendental.
O Renascimento só se começa a interessar pela “Ideia” a partir do séc. XVI, com o Maneirismo:
- Francisco de Holanda
- Paolo Lomazzo
- Frederico Zuccaro

Apesar de toda a filosofia neoplatónica de Ficino e Landino, estes autores nunca fazem associar a noção de “Ideia” à de “criação artística”.
São dois artistas que fazem esta associação no Renascimento: Miguel Ângelo e Dürer: “Um bom pintor está repleto de formas dentro de si próprio e, supondo que ele pudesse viver eternamente, encontraria nas Ideias Interiores, de que Platão fala nos seus escritos, onde ir buscar sempre algo de novo para introduzir nas suas obras” Panofsky- “Ideia”, 1983, pág. 148

As Ideias interiores de que Dürer fala aproximam-se mais da concepção neoplatónica da qual Holanda participa do que da concepção verdadeiramente renascentista, e isto numa época em que tais afirmações eram verdadeiramente originais, como esta noção de que o artista pode retirar do seu espírito sempre algo de novo:
“La doctrina de las Ideas, que adquiren aquí casi el carácter de inspiraciones, se acomoda a aquel concepto romántico del genio que ve el rasgo distintivo del verdadero arte no en la exactitud y en la belleza, sino en una infinita plenitud creadora, siempre original y sin precedentes.[1]” Panofsky, , Idea, Contribucíon a la historia de la teoría del arte, Madrid: Ediciones Cátedra, 1977, pág. 110

É a partir de Miguel Ângelo que podemos encontrar a introdução de ideias platónicas na teoria da arte.
Francisco de Holanda é testemunha disto. M. Ângelo usa um vocabulário simples, não recorre a termos filosóficos mas antes àqueles que são próprios da linguagem de um artista.
Miguel Ângelo usa termos como: Ideia, exemplo, norma, forma, conceito, espelho, etc…
Na obra “Idea”, Panofsky, não faz qualquer alusão a Holanda, autor que ele desconhecia totalmente.
Panofsky afirma que o termo Ideia associado à Criação Artística, só surge no Maneirismo tardio, séc. XVII
Se este tivesse lido o Da Pintura Antiga, teria constatado que havia um tratado neoplatónico de Pintura em pleno séc. XVI, que refere a IDEIA.

Holanda fala de Ideia 60 anos antes de Zuccaro e 40 anos antes de Lomazzo
O conceito de Ideia com uma conotação metafísica associado à criação artística surge pela primeira vez com Francisco de Holanda e não no Maneirismo tardio como disse Panofsky.
Nas Vidas de Vasari, a dimensão filosófica de Miguel Ângelo é esquecida, daí a grande importância da obra de Holanda.
Holanda tal como M. Ângelo defende que a Ideia é a força da Pintura, é o a priori sem o qual nada se cria.
M. Ângelo acreditava que desbastando o mármore encontraria a Ideia que conduzia a sua criação.





06 janeiro 2011

14ª Lição - Nietzsche e a essência do Trágico

Nietzsche procura a origem do fenómeno do Trágico.
Defende que a sua origem está ligada a 2 instintos primordiais que norteiam a arte grega: o apolíneo e o dionisíaco
Analisa a Tragédia do ponto de vista puramente estético, rejeitando qualquer conotação moral, política ou religiosa


  • Apolíneo- forma da individuação, equilíbrio, véu da aparência
  • Dionisíaco- Identificação com o Uno Original, Informe, Vitalidade (poder da Vida)
Os dois princípios são opostos mas complementam-se na perfeição no caso da Tragédia grega
O Objectivo central de A Origem da Tragédia é mostrar que os gregos eram afirmativos (apesar de pessimistas) que os seus instintos não eram negados.

E como faziam isto? Através da arte, da música e do mito, todos em sincronia, mas sobretudo, pela vivência de Apolo e Dionísio que eram manifestações fisiológicas da própria natureza, pela qual o grego se regenerava diante do horror da existência.
A dramatização é a manifestação apolínea de forças dionisíacas presentes na tragédia
Para N. a essência do Trágico vem da música, arte que tem a força de reproduzir o que há de primordial e eterno

  • Diónisos- Deus antigo da loucura, da embriaguês, do êxtase, da metamorfose
  • Apolo- Deus da Arte, da música, da aparência

É no Coro Trágico que N. vê a presença do culto a diónisos, também pela sua ligação à música
nN. afirma que foi ele pp quem descobriu o Trágico, mesmo os gregos o desconheciam, e por isso deixaram a Tragédia morrer…. (Ecce Homo)


Defende 3 Mortes da Tragédia:
n1ª- Morte Euripediana (Dialética Socrática)
n2ª- com o Cristianismo
n3ª- Dialética moderna de Hegel e a opera de Wagner


Ao lado de Sófocles e Ésquilo, Eurípedes é considerado um dos grandes tragediógrafos gregos, o último. 
De acordo com estudiosos do período, estima-se que escreveu cerca de 95 peças trágicas. Porém, somente 18 chegaram até à nossa época.
Eurípedes abordou, nas suas tragédias, questões psicológicas humanas, o que se chamou a tragédia dos vencidos, muitas vezes do ponto de vista feminino. A partir de Eurípedes a tragédia perdeu a sua vitalidade e tornou-se anti-dionisíaca.
N. afirma que a tragédia morreu por suícidio e que a sua morte deixou um enorme vazio.
Eurípedes vulgarizou o género dramático e tornou-o “acessível” ao grande público:
“com ele o homem comum deixou o banco dos espectadores e subiu ao palco”
Eurípedes usou estratégias como: pensamentos frios e sentimentos ardentes e abandonou o apolíneo e o dionisíaco.
Eurípedes, para N., não era um artista mas sim um pensador. Não entendia a tragédia dos seus antecessores, e quis “moraliza-la” e torná-la compreensível.  Assim esmagou-a com o peso da razão…. Para Eurípedes o “entender” estava na raiz de toda a fruição estética. Faz depender a obra de arte da compreensão racional - Encontra em Sócrates um poderoso aliado

A antiga oposição frutífera Apolo/ Diónisos vai-se transformar na estéril oposição Sócrates / Diónisos
Sócrates: modelo de homem teórico que vai preponderar por mais de 24 séculos
Para Sócrates a essência da Beleza é o Belo em si, a sua filosofia é optimista, na medida em que defende a possibilidade Crítica à noção aristotélica de Catarse

Ainda que Aristóteles elogie a tragédia, teria ele razão quanto aos motivos desse elogio? 
Isto é, em relação à acção ou ao efeito da arte (catarse) sobre o público? 
 de atingir a essência das coisas.
A filosofia de Sócrates com a sua ideia de Verdade, de Bem, de perfeição das Ideias, vai dominar a metafísica ocidental e será o elemento constituinte do niilismo

Niilismo- Depreciação desta vida com base em ficções como “o outro mundo”, “mundo das ideias” “mundo da bem-aventurança”

Sócrates é o génio da decadência, o tipo de homem teórico, a quem se contrapõe o tipo de homem trágico
Em Sócrates dá-se a seguinte contradição:
Quando a inteligência racional vacila, Sócrates vai buscar apoio a uma voz mitológica, o daimon….
De tempos a tempos Sócrates escutava o daimon como um remorso na sua alma: “exercita-te na música” (Apologia de Sócrates)
O optimismo socrático invadiu a obra teatral de Eurípedes e expulsou dela o elemento dionisíaco-musical.
“só o sábio é virtuoso”
“Tudo, para ser belo, deve ser racional”
Eurípedes introduz o “Prólogo” em que uma personagem aparece a solo e faz uma explicação do que se passou antes e um resumo do que os espectadores irão ver.
Isto para Nietzsche é escandoloso, pois acaba com o suspanse e com qualquer efeito trágico
Para Sócrates a tragédia não traduz a verdade, por isso constitui um perigo e uma má influência para os mais fracos de espírito.
Platão para ser discípulo de Sócrates teve de negar a poesia, e tentando afastar-se dela e dedicar-se com elevação racional à filosofia, fez apenas um desvio para a ela regressar inconscientemente através do seu género literário riquíssimo: o Diálogo platónico






  •   Crítica à noção aristotélica de Catarse

Ainda que Aristóteles elogie a tragédia, teria ele razão quanto aos motivos desse elogio?
Isto é, em relação à acção ou ao efeito da arte (catarse) sobre o público? 

“Será que a compaixão e o medo acabariam por ser, como quer Aristóteles, purificados  pela tragédia, de tal modo que o auditório voltaria para a casa com o espírito mais mais calmo? Poderiamos dizer então que as histórias de fantasmas nos tornariam menos medrosos e menos supersticiosos?” , pergunta Nietzsche em Humano, demasiadamente humano. 


O desacordo de Nietzsche em relação a Aristóteles sustenta-se sobre o facto de que a catarse não seria eficaz e reforçaria o que ela se propõe a abolir.
Aristóteles teria errado ao pensar que os espectadores se livrariam de seus medos e compaixões, na medida em que esses afectos logo retornariam.
Nietzsche não considera que a experiência catártica seja de fato vivida pelos espectadores do verdadeiro drama trágico
Nem acredita que a catarse constitua a essência deste género teatral.
A experiência da catarse não é vivida pelos espectadores porque ela não é propiciada pela tragédia.
A experiência suscitada pelo verdadeiro drama trágico é inteiramente outra
O grego não fazia uso das tragédias para se divertir de uma vida sombria e entediante, para encontrar ali um entusiasmo que ele não conheceria em outro lugar, ou para purgar ali uma tendência medrosa ou compassiva.
Muito pelo contrário, ele procurava tragédias porque elas davam um grande prazer estético – no sentido de aisthèsis, de sensorialidade, de afectividade
O público grego procurava na tragédia, segundo Nietzsche, uma experiência / vivencia estética; a experiência de sair de si mesmo, não para experimentar uma catarse e permanecer o mesmo, mas para se ver “transformado e transfigurado” por essa experiência. “Nesse estado onde se está ‘fora de si’, nesse estado de êxtase.

17 dezembro 2010

12ª Lição- Platão- LivroX da República e Magritte



DESVALORIZAÇÃO da ARTE

As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. Em todo caso, no conjunto do seu pensamento, em oposição ao seu génio e ao génio artístico grego, prevalece a desvalorização por dois motivos um teórico e outro prático.
O motivo teórico é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico, que é já uma cópia do mundo ideal; cópia não de essências, como a ciência, mas de fenómenos. Por consequência, a arte deveria ser, gnosiologicamente, inferior à ciência.
O motivo prático é que a arte, impura fonte gnosiológica - torna-se um tanto perigosa no campo moral. Actuando cegamente sobre o sentimento, a arte tanto atrai para o verdadeiro, como para o falso, para o bem como para o mal.


Na República a Arte é discutida do ponto de vista do educador, do homem de Estado.
Platão está interessado no aspecto social da obra de arte e não na obra de arte em si, nem no artista
Platão está consciente da importância e influência da arte na vida das pessoas:

“Mas então só aos poetas é que devemos vigiar e forçá-los a introduzir nos seus versos a imagem do carácter bom, ou então a não poetarem entre nós? Ou devemos vigiar também os outros artistas e impedi-los de introduzir na sua obra o vício, a licença, a baixeza, o indecoro quer na pintura de seres vivos, quer nos edifícios, quer em qualquer outra obra de arte? E se não forem capazes disso, não deverão ser proibidos de exercer o seu mester entre nós?" (A República – 401b)





O que Platão disse sobre a arte, é que a arte é imitação. Esta afirmação não pode ser uma definição da arte, dado que, entendendo-a como uma definição, identifica a arte com a imitação, mas nem toda a imitação é arte.
A afirmação de Platão é, no melhor dos casos, uma definição parcial, quer dizer, a pressuposição de que a imitação é uma condição necessária para que algo seja arte.
Se Platão tivesse tido um interesse teórico centralizado na arte, quem sabe, teria tratado de especificar uma segunda condição ou um conjunto de condições ulteriores que distinguiriam aquelas imitações que são arte daquelas que não o são. Se tivesse feito esta especificação, então teríamos uma teoria platónica da arte.


A poesia só será permitida se imitar a verdade, a essência, e não se for uma imitação ignorante.


No livro X, Platão faz uma objecção às artes fundamentada na teoria das Ideias. (597a)
Os carpinteiros fazem camas, de todos os tipos, e o pintor ao pintar uma cama, reproduz apenas a sua aparência, vista de um ângulo particular e limitado



Há 3 níveis de realidade: Ideias, a Realidade Sensível e a Arte


-A Arte entendida como imitação, só deveria representar o que é bom e adequado à vida humana.
-Platão defende que o mal, as emoções fortes, e mesmo a representação do vento ou da tempestade, são de evitar.
-Nenhuma acção má pode ser representada em palco, poderia apenas ser narrada, mas não representada, como é o caso da Hybris, crime, na Tragédia

Platão justifica a expulsão dos poetas da cidade com o argumento de estes são excessivos e perigosos, e que seremos influenciados na nossa vida pelas emoções que a arte nos transmite, como a dor, a paixão, o ridículo, etc.:

“Se pensares que a parte da alma que há pouco contínhamos pela força, nos nossos desgostos pessoais, que tem sede de lágrimas e de gemidos em abundância, até se saciar, porque a sua natureza é tal que a leva a ter esses desejos, é , nessas alturas, a parte a que os poetas dão satisfação e regozijo.”
Platão- A República, (606 a)





É com base neste argumento que, Platão defende que somente se devem receber na cidade hinos aos deuses e encómios aos varões honestos e mais nada:

“Se porém, acolheres a Musa aprazível na lírica ou na epopeia, governarão a tua cidade o prazer e a dor, em lugar da lei e do princípio que a comunidade considere, em todas as circunstâncias, o melhor.” Platão, República, (607 a) pág. 475




Platão julga as artes segundo as suas possíveis consequências na vida social.
Na República e nas Leis, Platão condena a Tragédia por razões interessantes:
A Tragédia habitua o espectador a ver no palco ilustres heróis a sofrer, a queixarem-se e a leva que o espectador aprecie e sinta prazer ao ver o sofrimento do outro.

A discussão no livro X começa lembrando que muita da poesia foi rejeitada por ser mimética. (referência ao livro III- a poesia que imita de modo livre é rejeitada)
Seguidamente critica a Tragédia e a Comédia e mesmo a representação dos poemas de Homero, a que chama, o primeiro dos trágicos, porque na representação não há sentido crítico.
Muita poesia lírica não seria permitida na cidade ideal de Platão (mas também não seriam permitidos os oradores, sofistas).



Livro III da República:
Poesia narrativa: Ditirâmbica (relata, lê)
Poesia mimética: Tragédia e Comédia (representa)
Poesia Mista : Mistura as duas anteriores
A maioria da poesia está cheia de mentiras, de imoralidades, ódios, traições e relatos de violência. Deve ser rejeitada! A poesia só deve imitar homens de bem.
A poesia é criticada tendo em vista as suas consequências na educação dos Guardiões! Preocupação Moral


Rejeita em absoluto a Poesia!
Não deve ser executada nem ouvida
Critica a natureza da Mimesis (imita a realidade sensível)
Critica a actividade poética, os poetas não têm conhecimentos verdadeiros, iludem a inteligência dos espectadores
A poesia dirige-se à emoção e não à razão, o lado mais nobre da alma humana
No livro X a Mimesis é rejeitada por causas ontológicas, porque está três graus afastado das Ideias.
O pintor e o poeta são imitadores e não criadores!











Magritte- A Traição das Imagens

“The famous pipe. How people reproached me for it! And yet, could you stuff my pipe? No, it's just a representation, is it not? So if I had written on my picture "This is a pipe," I'd have been lying!” Magritte


Quando Magritte afirma “isto não é um cachimbo”, ele parece querer defender-se de Platão, ao afirmar que não tem a pretensão de imitar um cachimbo, ele está consciente que está a fazer uma mera representação.
Este pintor assume a sua intelectualidade e recusa a acusação de ignorância.

Para Platão, a arte deveria encaixar-se numa relação triádica entre o justo, o belo e o bom. Por ela tem um carácter enganador, falso, não deveria existir na cidade ideal.
A arte seria uma reprodução da coisa q existe por participação na ideia.
Magritte esvazia o recheio de uma realidade nessa obra; a materialidade, o físico é refutado por uma frase. Uma expressão é responsável pela quebra de perspectivas estéticas e visuais: N'est pas. É uma luta contra a tendência ilusória dos olhos, um rompimento da sensibilidade inconsciente.

O pintor e o poeta são imitadores. Assim como o primeiro imita, não aquilo que é verdadeiramente, mas o que aparenta ser, também o poeta faz o mesmo ao imitar todas as coisas sem as conhecer verdadeiramente. o imitador gera ilusão e aparenta conhecer, mesmo não conhecendo o objecto que imita em profundidade.


No início do livro X de A República, Platão expõe que a mimesis pode representar apenas um aspecto, seja ele frontal ou lateral de um objeto, e nunca o objeto como o todo. Sendo assim, a mimesis está ligada do múltiplo sensível, e não ao ser. É portanto contrária à ciência, pois trata do oposto do que é.

Os poetas, tinham por função a manutenção das tradições orais. A educação pela poesia visava manter o ethos e a educação. Platão faz uma analogia entre a atividade mimética dos pintores e os poetas, pois estes tratavam de diversos assuntos diferentes, da virtude e das coisas divinas, sendo mesmo uma espécie de enciclopédia tribal.

Platão conclui que a mimesis dos poetas é uma imitação de um simulacro da virtude.

A poesia imita o homem em todas as suas contradições internas, conflitos, felicidades e infelicidades.
E é ao representá-los que os coloca como verdades aparentes.
Com isso, a poesia dificulta a educação do homem, na medida em que dando à ilusão aparência de verdade, afasta-os do conhecimento, da verdade O poeta é, nas cidades comuns, um “formador de opinião”, já que cria os mitos fundadores da cultura.
Por isso, tal como os pintores, e ainda mais que eles, não têm lugar na cidade Ideal, cuja constituição é regida pela Filosofia.

A actividade poética, quando permite a contradição, faz parte de uma faculdade da alma que é contrária à ciência, pois se baseia no relato físico, sensível, que é alheio à razão.

Logo, mimesis está ligada à pior parte da alma, a parte das paixões, a concupiscência, que não tem em vista nada a de verdadeiro, e foge ao bom senso.

A Arte entendida como imitação, só deveria representar o que é bom e adequado à vida humana
Platão defende que o mal, as emoções fortes, e mesmo a representação do vento ou da tempestade, são de evitar.


Nenhuma acção má podia ser representada em palco, poderia apenas ser narrada, mas não representada, como é o caso da Hybris, crime, na Tragédia

Platão julga as artes segundo as suas possíveis consequências na vida social.

Na República e nas Leis, Platão condena a Tragédia por razões interessantes:
A Tragédia habitua o espectador a ver no palco ilustres heróis a sofrer, e isso leva a que o espectador aprecie e sinta prazer ao ver o sofrimento do outro.

Rejeita em absoluto a Poesia!
Não deve ser executada nem ouvida

Critica a natureza da Mimesis (imita a realidade sensível)
Critica a actividade poética, os poetas não têm conhecimentos verdadeiros, iludem a inteligência dos espectadores A Poesia é imoral, representa os vícios e as fraquezas. Dirige-se à emoção e não à razão, o lado mais nobre da alma humana.
O pintor e o poeta são imitadores ignorantes e não criadores!

Foi o próprio Platão a chamar a atenção para a existência de "um grande combate" (608b), aquele travado entre a razão e a imagem, entre o discurso racional e as artes (miméticas),
o "antigo diferendo entre a filosofia e a poesia" (607b)

A mímesis seria responsabilizada por oferecer apenas ausência, falta, simulacro, aparência e, ao mesmo tempo, através dos seus poderes excessivos, a sua força extraordinária de arrebatamento e atracção para as emoções e não para a razão.

Além de executar suas obras "longe da verdade", a pintura, a poesia, todas artes miméticas de um modo geral, colocam-nos ante a parte em nós mesmos mais distante do bom-senso (603b), do razoável e da lei e, no entanto, insiste Platão, a melhor parte de nós seria aquela que quer seguir a razão, sendo a outra aquela "que nos leva à recordação do sofrimento e aos gemidos e que nunca se sacia deles" (604d).
Essa parte fraca, irracional, propensa à covardia, mostra-se exactamente como material perfeito para a imitação, "ao passo que o carácter sensato e calmo, sempre igual a si mesmo, nem é fácil de imitar nem, quando se imita, é fácil de compreender", sobretudo quando se trata da arte produzida para os festivais dramáticos, em que se apresentavam as tragédias (604d1e).

11 dezembro 2010

11ª Lição - Hípias Maior (Platão)

PLATÃO- HÍPIAS MAIOR


- O Hípias Maior, tem o privilégio singular de ser o primeiro dos diálogos estéticos consagrados ao tema do ‘Belo’.

- Diálogo da juventude (primeira fase - socrática) de Platão

- Quais as suas fontes estéticas?
É um diálogo refutativo e anti-sofístico, que visa destruir os antigos argumentos e impor um sistema novo
Tenta de alguma maneira varrer as teorias mitológicas, nomeadamente a que se prende com Apolo, deus da poesia e da música e as teorias mitológicas acerca das musas




Diálogo com o sofista Hípias de Atenas.
Indagação sobre o Belo

1. Sócrates elogia (ironicamente) Hípias pela sua sabedoria, própria dos sofistas, que para além de dominarem a esfera pública e privada, ainda recebem grandes lucros.
Hípias gaba-se bastante dos seus dons oratórios
Sócrates questiona-o acerca da questão da educação, uma vez que os sofistas são os “mestres da virtude.

2. Hípias vê-se num impasse, obrigado a reconhecer que não consegue transmitir a arete (virtude) aos habitantes de Lacedemónios, que por se considerarem virtuosos por natureza não aceitam essa lição de um sofista estrangeiro
Hípias admite no entanto que eles são capazes de escutar os seus discursos com interesse, como o último discurso que lhes fez intitulado “As Belas ocupações”
É aqui que se introduz o tema do Belo

4. Sócrates pergunta-lhe de forma insistente: “O que é o Belo?”
Hípias desvaloriza, referindo-se à insignificância da pergunta
Hípias começa por cometer um erro, que é não distinguir entre o conceito e o exemplo de belo.
Revela incapacidade de abstracção lógica
“O belo é uma bela rapariga, uma bela lira, uma bela marmita…”

5. Hípias cai no Relativismo
Sócrates indaga-o acerca do Belo em si
Belo em si, aquilo que é comum a todas as coisas belas, a razão de ser da beleza das coisas
Sócrates procura o eidos, o carácter
“o belo em si não é nem este objecto nem aquele, mas qualquer coisa que lhe comunica o seu próprio carácter”
A segunda tentativa de Hípias também é falhada: “o belo é o ouro”
Cai em contradição, pois Sócrates mostra-lhe exemplos em que esculturas noutros materiais podem também ser belas
Hípias conclui que uma coisa é mais bela quando é apropriada à sua função: uma colher de pau é mais bela para fazer um puré do que uma de ouro…
Hípias defende que a beleza é a Conveniência
Sócrates vai rapidamente refutar esta resposta: a conveniência é uma relação entre vários objectos, logo entre as partes de um todo. Se as partes são belas a beleza não vem da sua disposição, e se as partes não são belas a disposição só pode produzir a aparência do belo
Surge então a segunda tentativa de definição: o belo é o útil


6. Hípias vai, pois, representar no diálogo a opinião da maioria. Contudo, Hípias é ao mesmo tempo considerado o Saber Supremo, para si e para a sociedade do seu tempo, – com a maioria e o senso comum – o expoente máximo do pensamento racional, no domínio da lógica, da matemática, da ciência. Neste sentido, para Hípias (qualquer hípias) não existe Sabedoria (Arte ou Dialéctica) mais além dos seus próprios limites – não lhe é concebível (tal como nos dias de hoje), pois não é uma questão de vontade, é algo ausente da sua mentalidade e de que jamais terá consciência – jamais poderá alcançar o Belo (a Arte) e a Dialéctica.

7. O Belo é um prazer inteligível, dado pelo reconhecimento no espírito da ideia da realidade do objecto, do facto, por isso só apreensível pelo ver ou pelo ouvir (os dois sentidos que transportam o mundo exterior ao inteligível), ou pelos dois sentidos em conjunto.
Todavia, não apenas pela vista ou pelo ouvido, pela percepção do objecto, considerando que não é propriedade dos sentidos, pois apenas passa por eles para se manifestar no espírito, ao inteligível, pela noésis.
Como a Dialéctica, desenvolve-se a partir das mais intimas zonas do Ser (do sensível ao afectivo e emocional), enraizando-se nos seus desejos mais profundos, percorrendo o racional e ultrapassando-o, emergindo no espírito como uma clarividência.
Hípias está muito longe de compreender ou apreender isso, e Sócrates reconhece que só por vezes tais coisas lhe passam pela cabeça.

6. O Belo é a potência para se fazer alguma coisa: “um belo atleta”, “um belo navio”
Aptidão para atingir um fim
Sócrates vai testar esta afirmação, reflectindo acerca das consequências
E se o fim a atingir for mau?
Não é admissível que o que é belo não seja bom e vice-versa
Então Hípias corrige de “Útil” para “Proveitoso”

7. A discussão passa para o plano da ética
Na verdade continuamos no campo do concreto e não do abstracto (belo em si continua por definir)
“O belo é a causa do Bem”
Esta definição é também rejeitada por Sócrates
A beleza visual, das pessoas e das obras de arte, bem como a beleza auditiva, das vozes das musas, da lira, conduz a uma nova definição:
O Belo é o que é agradável à vista e ao ouvido



8. A qualidade “agradável” não serve para caracterizar a beleza, pois nesse caso todos os restantes prazeres, incluindo os mais feios, seriam belos, o que não faz sentido.
Hípias insiste no agradável unicamente à vista e ao ouvido e tentar ainda pegar no conceito “proveitoso” anteriormente rejeitado.
Defesa do prazer com metron, medida. O ouvido e a vista através das artes que representam, música, pintura, escultura e arquitectura usam a métrica e os canons que se fundamentam no número (elemento inteligível entre o sensualismo do prazer).
Mais uma vez cai na aporia de juntar no belo o ético e o estético e de continuar a falar de coisas belas e não do Belo em si.
Ambos concluem que “o Belo é difícil.”

21 novembro 2010

8ª Lição- 'Íon' de Platão

Íon — pertence ao primeiro grupo dos diálogos de Platão e relata uma conversa entre Sócrates e Íon de Éfeso, um rapsodo muito conhecido em Atenas. Não sabemos a data exacta da composição, mas a partir de diversas informações contidas no texto é possível situá-la entre 394 e 391 a. C.
Diálogo entre Sócrates e Ion, célebre rapsodo (artista popular, declamador de poesia)



Ion é orgulha-se de ser o melhor a declamar Homero
Sócrates indaga o motivo de ser Homero e não outro qualquer
Ion acha que há “qualquer coisa” em Homero que é especial, diferente dos outros
Íon, recém-chegado a Atenas, conta a Sócrates que acabara de vencer o concurso do festival de Asclépio em Epidauro e gaba-se de sua capacidade de declamar e comentar os poemas homéricos. Depois de cumprimentar o rapsodo, Sócrates começa a interrogá-lo (530a-531a).
Sócrates leva Íon a reconhecer que não é pela técnica que se possa aprender que ele é melhor a declamar Homero, mas por uma espécie de paixão que o move e o leva a preferir Homero a todos os outros poetas:

534c- "Sócrates.: Vejo, Íon, que não há uma técnica, mas uma potência divina que te movimenta, como na pedra que Eurípides nomeou Magnética, e que muitos a chamam de Hércules. Essa pedra não só atrai os anéis mesmo de ferro, como os infunde poder de modo a novamente fazê-los ter o mesmo poder que a pedra, isto é, atrair outros anéis,(…) . Assim, a Musa mesma faz os inspirados; e através desses inspirados, outros se entusiasmando, formam uma cadeia. Com efeito, todos os poetas épicos, os bons, não por técnica, mas sendo inspirados e possuídos, dizem todos esses belos poemas. Os poetas líricos, os bons, igualmente; como os coribantes não estando conscientes dançam, assim também os poetas líricos não estando conscientes fazem esses belos versos líricos; e quando entram em harmonia e no ritmo, comportam-se como bacantes e ficam possuídos; tal como as bacantes retiram mel e leite dos rios ficam possuídas e não estando conscientes; e também a alma dos poetas líricos elabora isso, que eles mesmos afirmam. Dizem-nos os poetas, é evidente, que das fontes que vertem mel de certos jardins e bosques das Musas que eles nos trazem seus versos líricos. Como as abelhas, eles assim voam; e dizem verdade.
Leve é coisa do poeta, alada e sagrada; e inicialmente não consegue compor, antes de se tornar inspirado, de ficar fora de si e o pensamento não habita mais nele; até que tenha essa aquisição, todo homem é incapaz de compor e de proferir oráculos. Então, já que não é por técnica que eles fazem e dizem muitas e belas coisas sobre os acontecimentos, como tu sobre Homero, mas por parte divina; cada qual é capaz de compor de maneira bela só naquele género para o qual a Musa o precipitou: este para os ditirambos, o outro para os encómios, aquele para os épicos, o outro para os jambos, e cada um deles é medíocre nos outros géneros. Pois não dizem essas coisas por técnica, mas pelo poder divino portanto, diz: porque se eles soubessem falar bem a respeito de uma delas por técnica, também saberiam falar bem de todas as outras: por isso, o Deus extraindo o pensamento desses usa-os como auxiliares, profetas e adivinhos divinos, a fim de que nós, os ouvintes, saibamos que não são estes os que falam as mesmas coisas assim muito dignas, pois o seu pensamento não está presente, mas é o próprio Deus o comunicante, através deles se comunica connosco. "

Sócrates pensa que o motivo que leva Ion a ser o melhor a declamar Homero, é:
“- Não é um assunto que tenhas aprendido, a falar acerca de Homero, mas antes é um poder divino que te move, como uma pedra magnética move anéis de ferro (…) da mesma maneira com que a musa faz com que algumas pessoas fiquem inspiradas” 534b

“Nenhum dos poetas, se são bons, são donos do seu saber, eles são inspirados, possuídos, e é assim que eles produzem os seus belos poemas.
É uma possessão, eles não estão em si próprios. Um poeta não é capaz de produzir poesia enquanto não estiver inspirado e saia da sua mente e o seu intelecto o abandone. Enquanto a musa tiver na posse do intelecto humano, ele terá sempre o poder de fazer poesia e cantar profecias. Por isso não é através da aprendizagem que eles fazem poemas ou dizem coisas encantadoras, mas porque é uma dádiva dos deuses.” 534b-c
535e
"Sócrates- Deus nos apontou, a fim de que não duvidássemos, que não são humanos estes belos poemas, nem dos homens, mas divinos e dos deuses; e que os poetas nada mais são que intérpretes dos deuses, e cada um é possuído pelo deus que o possuir. O Deus mostrando essas coisas de propósito, através do mais medíocre poeta cantou o mais belo verso lírico: ou não te pareço dizer a verdade, Íon?
Íon: Sim, por Zeus, ao menos para mim! Tocas de algum modo minha alma com esses discursos, Sócrates, parece-me que é por parte divina que os bons poetas interpretam para nós as coisas que estão juntas dos deuses. "

Os Rapsodos passam a ser vistos por Sócrates como os intérpretes dos intérpretes. O deus possuí o poeta e o poeta possuí o rapsodo e este por sua vez possuí a audiência.

534d “Não é a habilidade nem o conhecimento que lhes permite dizer esses versos, mas um poder divino.É por isso que o deus lhe rouba o intelecto enquanto os usa como escravos, tal como faz com os profetas e os adivinhadores. Não é o seu intelecto que nos fala mas o próprio deus que ganha voz através deles”

Sócrates afirma que Íon está possuído pelo espírito de Homero e por isso é que o declama e interpreta tão bem, levando em cadeia o público a ficar extremamente comovido e impressionado como se fizessem parte da cadeia da tal pedra magnética.

536 a-b
Sócrates.: Sabes então que o próprio espectador é o último dos anéis de que eu falava, a receber o poder que, sob o efeito da pedra de Hércules, passa de um para o outro? O do meio és tu, rapsodo e o actor, e o primeiro é o próprio poeta. O Deus, através de todos eles, dirige a alma dos homens para onde quiser, fazendo passar o poder de uns para os outros.

Sócrates vai argumentando com Ion, no sentido de o convencer que ele é bom a declamar Homero, não porque tenha grandes conhecimentos, mas porque está possuído.
Sócrates faz ver a Ion, que o poeta é capaz de falar sobre todo o tipo de temas, mesmo sem saber nada sobre eles

Se o poeta não possuí a técnica sobre tudo o que declama, então é ignorante.
Por exemplo pode declamar versos em que Homero fala de medicina e nada saber sobre medicina. Ou sobre a tarefa de um general e o rapsodo não sabe nada sobre isso.
Como é técnico Íon é um ignorante, mas como poeta é um ser divino.

Sócrates afirma que cada arte tem a sua natureza própria: a arte do médico, a arte do cocheiro, etc.
E questiona-o acerca da arte do rapsodo?
Será que ele domina todas as outras naturezas quando por exemplo Homero fala da arte do médico em alguma passagem da Ilíada? Pag. 81
Íon acha q sabe e domina tudo!
Sócrates mostra-lhe a sua incoerência:
Ele como Rapsodo não pode dominar as outras artes pois a sua arte é diferente dessas.
Depois de ìon cair em contradição, e admite que tem uma sólida cultura geral
Se o poeta não possuí a técnica sobre tudo o que declama, então é ignorante.
Por exemplo pode declamar versos em que Homero fala de medicina e nada saber sobre medicina. Ou sobre a tarefa de um general e o rapsodo não sabe nada sobre isso.


Ion afirma que qualquer poeta tem obrigação de possuir uma sólida cultura geral.
Sócrates pergunta a Ion se qualquer pessoa com uma sólida cultura geral pode ser um bom poeta?
Sócrates conclui que o poeta ou é um ignorante ou é um ser divino!

14 outubro 2010

4ª Lição - Demócrito, Platão, Pitágoras


ESTÉTICA na FILOSOFIA

Na Grécia Antiga, a Estética desenvolveu-se a par das Artes Visuais, bem como da Filosofia e das correntes humanistas.
Alguns pensadores formularam teorias da arte com base na prática de artistas, outros pelo contrário influenciaram artistas com as suas teorias.
Ex. A utilização de Canons na Escultura, decorre da filosofia pitagórica
As primeiras teorias estéticas tratam da poesia, por ser o género com que os filósofos estavam mais familiarizados

DEMÓCRITO

Demócrito de Abdera (cerca de 460 a.C. - 370 a.C) é tradicionalmente considerado um filósofo pré-socrático.
Cronologicamente é um erro, já que foi contemporâneo de Sócrates. Do ponto de vista doutrinário, contudo, faz algum sentido considerá-lo pré-socrático, pois seu pensamento ainda é fortemente influenciado pela problemática da physis.
Demócrito foi discípulo e depois sucessor de Leucipo de Mileto. A fama de Demócrito decorre do facto de ele ter sido o maior expoente da teoria atómica ou do atomismo.

Demócrito faz depender a Arte da Natureza.
Afirma o seguinte:
“Fomos todos alunos dos animais em matérias de grande importância: da aranha, na arte de tecer, da tartaruga na arte de construir casas (…)”
A arte imita a natureza (Mimesis)

Demócrito debruça-se sobre o tema dos efeitos da arte:
“Grandes alegrias derivam da contemplação de belos trabalhos artísticos”
Demócrito era um Hedonista, que via todas as coisas do ponto de vista do prazer que daí poderia vir.
Relação entre: Beleza, Contemplação e Alegria

Inspiração

Origem da arte criativa: Poiesis
Poesia: Criação
Passar do não ser ao ser
A criatividade é em Demócrito um estado especial da mente, diferente do vulgar
Esta tese dará origem à associação entre Inspiração e “possessão divina”, ou “loucura das musas”

CÍCERO, Sobre o Orador, II, 46, 194.
Muitas vezes ouvi dizer que não pode existir (afirmação atribuída a Demócrito e Platão) nenhum bom poeta sem entusiasmo da alma e sem um sopro como que de loucura.
Arte Divinatória, I, 38, 80.
Pois Demócrito diz que nenhum poeta pode ser grande sem loucura, afirmação idêntica à de Platão.

HORACIO, Arte Poética, 295.
Demócrito acreditou que o génio é mais fecundo que uma arte pobre e excluiu do Helicão os poetas saudáveis...
18. CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Tapeçarias, VI, 168.
Um poeta, tudo o que ele escreve com entusiasmo é sopro sagrado, sem dúvida, belo...
102, Fragmento, 68.
Em tudo é belo o equilíbrio, mas não, parece-me, o excesso e a carência


Demócrito tem uma posição dúbia entre o ponto de vista mitológico e o científico.
Por um lado afirma que a inspiração do poeta vem de um “sopro sagrado”, por outro defende que toda a criação humana é um processo mecânico e natural.

Cores

As investigações de Demócrito acerca das cores primárias, de onde todas as outras partem, teve fortes consequências para a Pintura
Este tema das Cores teria sido já estudado na Grécia Antiga, mas sempre no âmbito da óptica. Demócrito tem o mérito de trazer este tema para a Teoria da Arte.
Defendia que as cores primárias eram: Branco, Preto, Vermelho e Amarelo

Música

Para Demócrito a Música não é uma actividade primordial do ser humano, não nasce de uma necessidade mas de um luxo.
A música não é um produto da natureza, mas da invenção humana
Atribuí à produção artística uma dignidade humana.

Medida

A expressão “Justo-meio”, é muito usada com Demócrito
Demócrito tal como muitos outros gregos, dá valor à moderação em qualquer actividade humana. O mesmo para a arte e para a Beleza
“Se alguém ultrapassa a medida, as coisas mais agradáveis, tornam-se as mais desagradáveis.”






PLATÃO



Platão de Atenas (Atenas,428/27– Atenas, 347 a.C.)
Discípulo de Sócrates, fundador da Academia e mestre de Aristóteles.
Platão era um apelido que, provavelmente, fazia referência à sua característica física, tal como o porte atlético, ou ainda a sua ampla capacidade intelectual de tratar de diferentes temas. Πλάτος (plátos) em grego significa amplitude, dimensão, largura. Sua filosofia é de grande importância e influência. Platão ocupou-se com vários temas, entre eles ética, política, metafísica e teoria do conhecimento.




Escola de Atenas Rafael

A Escola de Atenas (Scuola di Atenas no original) é uma das mais famosas pinturas de Rafael e representa a Academia de Platão. Foi pintada entre 1506 e 1510 na Stanza della Segnatura sob encomenda do Vaticano. É um fresco em que aparecem no centro Platão e Aristóteles. Platão segura o “Timeu” e aponta para o alto, sendo assim identificado com o mundo inteligível. Aristóteles segura a Ética e tem a mão na horizontal, representando o mundo sensível.


Platão não desenvolveu uma Estética propriamente dita, mas há traços básicos da sua filosofia que trazem consequências óbvias para a Estética:
Os objectos da natureza só existem por imitação ou por participação nas Ideias: o mundo é criado por modelos. O demiurgo é como o artista que cria a partir de modelos.

Em Platão o tema do Belo é recorrente. O Belo em si, é hierarquicamente superior a tudo e igualmente inatingível através dos sentidos.
O Belo em si, está ligado à ideia de Verdade e de Bem.



Sócrates
 
 


 



 Pitágoras
 

O Filósofo e matemático grego nasceu no ano de 580 a.C. na cidade de Samos, fundou uma escola mística e filosófica em Crotona (colónia grega na península itálica), cujos princípios foram determinantes para evolução geral da matemática e da filosofia ocidental. Os principais temas eram: harmonia matemática, doutrina dos números e dualismo cósmico essencial.

A Escola Pitagórica foi a primeira a dar à Estética o seu lugar.
Toda a sua filosofia é uma estética. Desenvolve a Abstracção, as Relações quantitativas, a glória do formalismo
O Número é a medida de todas as coisas
“Os números constituem tudo o que é”
As matemáticas e a música estão ligadas: -“mundo músico”

A ideia pitagórica de Proporção e Medida:
A harmonia resulta da proporção, medida e número, e da correcta relação matemática das partes Graças a Pitágoras a música tornou-se uma arte no sentido grego do termo.
Em vez de Beleza empregavam o termo Harmonia
Os pitagóricos viam a Harmonia, e a proporção como características objectivas das coisas

As suas teorias influenciaram a música e indirectamente a arquitectura e a escultura
A interpretação matemática da música foi a grande conquista da escola Pitagórica, mas também os canons das artes visuais com os seus cálculos aritméticos e construções geométricas, foram decisivas para o início de uma reflexão acerca da Estética

“A Harmonia é a Unidade de muitos elementos misturados, um acordo entre elementos em desacordo”
“Ordem e Proporção são belos e úteis, enquanto a desordem e a falta de proporção são feios e inúteis”
“Não há arte sem proporção, e a proporção reside no número. Toda a arte nasce do número. Assim há uma certa proporção na escultura e na pintura”