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05 janeiro 2011

13ª Lição - Aristóteles - Análise de temas da Poética

Poesia é IMITAÇÃO (Mimesis)


1.O que é preciso para que um poema resulte perfeito?
Aristóteles afirma que a epopeia, a tragédia, a ditirâmbica bem como a música da flauta e da cítara, são todas em geral imitações.
Diferem umas das outras porque imitam por meios diferentes, imitam objectos diferentes e por modos diferentes.
Há os que imitam através de cores e figuras – pintura e escultura
A poesia e a música têm em comum o facto de imitarem com o ritmo, a linguagem e a harmonia
Ex. a música usa o ritmo e a harmonia
Ex. a dança usa o ritmo e não a harmonia, e estes imitam com gestos e movimentos os afectos e acções~


2.Os imitadores imitam homens que praticam uma acção, em toda a sua variedade, desde o vício à virtude.
Os poetas imitam homens melhores, piores ou iguais a nós como fazem os pintores.
A imitação varia conforme o objecto imitado
Na poesia, por exemplo, Homero imitou homens superiores
Na Tragédia procura-se imitar homens melhores e na Comédia homens piores
Diferença entre as espécies de poesias imitativas: o modo como se efectua a imitação
Pode ser de forma narrativa, ex. Homero, narra uma história do ponto de vista do narrador, Epopeia
A outra é operando e agindo através do drama, dramaturgia, ex. Tragédia


3.Causas da Poesia:
Há duas causas naturais (físicas) para a poesia:
O imitar é natural ao homem (poeta)
Os homens comprazem-se com o imitado (espectador)
A poesia é um dom natural, faz parte da natureza humana. A poesia nasce do desejo de imitar.
Prova disto é que contemplamos com prazer imagens (representações) de coisas que na realidade contemplaríamos com repugnância e medo. 
Ex. Cadáveres, ou animais ferozes

Um dos motivos é o desejo de aprender, a arte é uma forma de aprendizagem e de conhecimento!
O prazer da contemplação da imagem vem do facto de se saber o que representa (coisa imitada), caso contrário apenas se retira prazer das cores e formas.


Aristóteles ensinando Alexandre o Grande


Aqueles que naturalmente foram propensos à imitação, deram origem à poesia, primeiro das maneiras mais toscas e depois de forma mais cuidada.
Conforme o ânimo de cada poeta, uns imitam acções nobres e outros acções ignóbeis.
Refere Homero como o primeiro grande poeta de género sério, também originando o género dramático e pai da Tragédia.
Aristóteles afirma que Homero traçou as linhas fundamentais para a Comédia, dramatizando o ridículo
A partir de Homero, os poetas começaram a criar poesia segundo os géneros: epopeia, comédia, tragédia. Aos poucos foram-se transformando e aperfeiçoando.
A Tragédia e a Comédia, nasceram do improviso, a 1ª dos solistas do ditirâmbo e a 2ª dos solistas dos cantos fálicos.
Para Aristóteles a Tragédia é uma evolução e dramatização da Epopeia e a Comédia da Paródia. São ambas imitações de homens superiores, em verso. A Epopeia é narrativa e a Tragédia é dramatização.

DEFINIÇÃO de TRAGÉDIA
Tragédia: poesia austera, é para Aristóteles a forma mais estimável de poesia segundo a sua hierarquia
A Tragédia pretende ter a duração máxima de um dia, “período de sol”, Concentração da acção trágica num só dia, para que se atinja a importância de um dia.
Ex. a vida muda de um dia para o outro, passando da felicidade para a infelicidade.
É imitação de uma acção de carácter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada ao longo das suas diversas partes.
Imita-se não através da narração mas através de actores que suscitam o terror e a piedade nos espectadores:

CATARSIS: tem por efeito a purificação dessas emoções.
A Tragédia provoca dois sentimentos contraditórios: por um lado um distanciamento, por outro lado uma identificação com o heroi trágico

A Tragédia é a imitação de uma acção mediante personagens, que agem e se apresentam conforme o seu próprio carácter e pensamento, que por sua vez constituem as causas das acções, dando origem à boa ou má fortuna dos homens.
O Mito: é a composição dos actos, sistema coerente, syndosis
O Carácter: qualidades das personagens
O Pensamento: tudo o que as personagens dizem para manifestar as suas decisões

Faz parte da linguagem ornamentada da Tragédia: o ritmo, a harmonia e o canto numas partes e em outras só o verso (diálogo)
O espectáculo cénico é uma das partes da tragédia, assim como a melopeia (arte de musicar a poesia), e a elocução, forma de declamar, de falar em cena.
O elemento mais importante é o MITO, a trama dos factos, pois a Tragédia é imitação de acções e de vida.
As acções, condicionadas pelo carácter dos personagens, é que conduzem à finalidade da Tragédia


Busto de Aristóteles


Beleza na TRAGÉDIA:
O belo, natural ou artístico, consiste na grandeza e na ordem (justo meio)
Tal como um objecto tem que ter um determinado tamanho para ser apreendido pela visão, também o mito tem de ter princípio, meio e fim
As acções numa tragédia têm de se dar com Verosimilhança e necessidade.
Situação Trágica: o herói trágico

As Tragédias mais belas são as complexas, que imitam casos que suscitem terror e piedade, para conseguir esse efeito trágico é necessário que o herói não seja nem muito bom nem muito mau, mas igual a nós, posição intermediária. O herói cai no infortúnio não por maldade, mas por força de um erro. 
Ex. Édipo

O poeta ou o pintor, tal como qualquer artista que use a imaginação é um imitador, que incide em 3 tipos e objectos: como as coisas são, como parecem que são ou como deveriam ser, através da elocução e de uma série de alterações que são consentidas ao poeta (liberdade artística?)

VIII- Unidade da Acção: unidade histórica e unidade poética
O artista tem de escolher as acções que interessam à obra de forma a que constitua uma unidade coerente

IX- Poesia e História
O poeta não deve narrar o que aconteceu mas sim representar o que poderia ter acontecido, segundo a verosimilhança e a necessidade
A Poesia é mais séria e filosófica do que a História pois refere-se ao universal
Na Tragédia e na Comédia, o poeta tem em vista o universal, os personagens são entidades, tipos

XV – Caracteres – Verosimilhança e Necessidade
Conveniência
Semelhança
Coerência
Tanto na representação de caracteres como no desenrolar da acção tem de haver sempre necessidade e verosimilhança

XVII – Exortações ao Poeta Trágico
O Poeta deve ter em conta o todo da história para evitar contradições, deve por isso colocar-se no lugar do espectador
Os poetas devem experimentar as emoções e gestos das personagens, quanto mais genuinamente o poeta viver a história, mais verosímil é o resultado
Poetar é uma actividade própria de ânimos exaltados e bem dotados, que se deixam arrebatar pelo êxtase (furor)




4. Para Aristóteles um poeta é tanto melhor quanto conseguir apagar-se a si próprio, dando voz às suas personagens de forma verosímil, expressando o seu carácter, seja homem ou mulher (como por exemplo fez muito bem Homero)
Aristóteles defende que um bom argumento deve afastar-se do irracional: “de preferir às coisas possíveis mas incríveis, são as coisas impossíveis mas críveis.”
O poeta ou o pintor, tal como qualquer artista que use a imaginação é um imitador, que incide em 3 tipos e objectos: como as coisas são, como parecem que são ou como deveriam ser, através da elocução e de uma série de alterações que são consentidas ao poeta
É importante que o poeta escolha sempre o verosímil.
Se a sua escolha for o irracional ou o impossível, só o deve escolher quando não tem outra opção (ex. cenas mitológicas – cenas de tragédias com deuses ou heróis)
O poeta deve evitar a contradição, o absurdo, a maldade gratuita, e a quebra das regras da arte

A Tragédia supera a Epopeia
Aristóteles lembra que é vulgar afirmar a superioridade da Epopeia face à Tragédia, uma vez que esta se dirige a um público mais elevado e culto, enquanto a Tragédia se dirige a um público mais rude, tal como toda a arte dramática.
Aristóteles critica esta censura, afirmando que mesmo que assim fosse esta crítica não caberia ao poeta mas sim aos actores
Reconhece que se os actores gesticulam demais caem no ridículo
A Tragédia não precisa de ser dramatizada para atingir o seu objectivo, também pela leitura o pode atingir
Mais ainda a Tragédia supera a Epopeia pois contém tudo o que a Epopeia tem e mais, possui música e espectáculo cénico
Possui grande evidência representativa quer em simples leitura quer em cena



(Fim da análise /resumo da obra)
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MIMESIS:
Mimesis – é natural ao ser humano desde a infância
Imitação, representação
A Mimesis é natural e agradável porque é uma forma de conhecimento, aprendizagem, e o ser humano deseja naturalmente aprender (Metafísica,I.1)
A mimesis artística, por exemplo desenho, traz mais conhecimento sobre o objecto desenhado, ao fazer os seus contornos, do que a sua mera observação.
Mimesis é a imitação de uma acção, é uma selecção activa de representação (enquanto que para Platão era passiva, como se toda a arte fosse como uma fotografia)
Para Aristóteles não se trata da Mimesis de Ideias Universais, mas pode ainda assim revelar algo de universal, que leva à identificação entre os espectadores e a história do herói trágico e seus sentimentos

ESTÉTICA em Aristóteles:
Aristóteles justifica a Poesia pelos seus efeitos éticos e pedagógicos.
Os efeitos éticos da Tragédia descendem dos efeitos artísticos.
Define regras para a poesia que não são moralistas como em Platão
Não há muitas referências ao termo “Beleza” no sentido estético
Aristóteles incluiu a vida artística no tipo de vida contemplativa (Theoria) tal como os filósofos, os cientistas e os políticos
Aristóteles reconhece a autonomia das artes, em especial da Poesia e a sua ligação à Moral e à Verdade
A verdade artística pode ser diferente da realidade e ainda assim ter valor, por vezes o critério da verdade não é aplicável à arte como por exemplo na música ou certos casos de artes visuais
Aristóteles colocou de parte o conceito de Beleza e dedicou-se ao conceito de Arte
Arte, tékné, é uma actividade humana, cuja forma está na alma e tem a sua causa no autor e não nela mesma
A Arte é uma actividade humana que se prende com a Produção
Uma pintura é o produto da pintura
Toda a arte é produção mas nem toda a produção é arte
Tem de ser uma produção consciente e baseada em conhecimentos
A habilidade do artista depende dos seus conhecimentos e do cumprimento das regras da arte, respeito pelos métodos
Aristóteles é o primeiro a associar Arte e Conhecimento
Não só a arte produz conhecimento, como se fundamenta em conhecimentos
A habilidade do artista é alcançada através da prática
Tal como todos os gregos, Aristóteles defende a importância da aprendizagem
Mas a aprendizagem por si só, não ajudará quem não tiver um talento inato
Aristóteles defende que:
A artes ou complementam a natureza naquilo que ela não é capaz de produzir
Ou imitam a natureza naquilo que ela criou


CATARSE;
Partes da Tragédia: é a mimesis de uma acção com certa magnitude, através da linguagem embelezada, e da Catarse das emoções: medo e piedade.
Catarse é um termo enigmático, que Aristóteles não chega a definir totalmente
Na sua obra Política VIII, fala da Catarse provocada pela música e pela poesia, mas não chega a desenvolver o conceito
A Catarse está ligada à vivência de sentimentos como a piedade e o medo, sentimentos despertados pelos caracteres dos personagens.

Catarse é um termo que está associado a “Limpeza”, “Purificação”, “Purgação”, como um termo médico, naturalista que será associado à Psicologia
Catarse é uma clarificação das emoções através do treino das mesmas
Para Aristóteles a vivência destas emoções provocadas pela Tragédia e que levam à Catarse, é saudável e positiva eticamente, ao contrário de Platão, que vê nestas emoções um grande perigo para a educação.
Em Platão o termo Catarsis ocorre em Fedro, 243 a,
Na Política, Aristóteles fala de Catarse como um apaziguamento da alma e como clarificação (conhecimento)
A Catarsis é a clarificação das emoções, ou o conhecimento das mesmas

17 dezembro 2010

12ª Lição- Platão- LivroX da República e Magritte



DESVALORIZAÇÃO da ARTE

As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. Em todo caso, no conjunto do seu pensamento, em oposição ao seu génio e ao génio artístico grego, prevalece a desvalorização por dois motivos um teórico e outro prático.
O motivo teórico é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico, que é já uma cópia do mundo ideal; cópia não de essências, como a ciência, mas de fenómenos. Por consequência, a arte deveria ser, gnosiologicamente, inferior à ciência.
O motivo prático é que a arte, impura fonte gnosiológica - torna-se um tanto perigosa no campo moral. Actuando cegamente sobre o sentimento, a arte tanto atrai para o verdadeiro, como para o falso, para o bem como para o mal.


Na República a Arte é discutida do ponto de vista do educador, do homem de Estado.
Platão está interessado no aspecto social da obra de arte e não na obra de arte em si, nem no artista
Platão está consciente da importância e influência da arte na vida das pessoas:

“Mas então só aos poetas é que devemos vigiar e forçá-los a introduzir nos seus versos a imagem do carácter bom, ou então a não poetarem entre nós? Ou devemos vigiar também os outros artistas e impedi-los de introduzir na sua obra o vício, a licença, a baixeza, o indecoro quer na pintura de seres vivos, quer nos edifícios, quer em qualquer outra obra de arte? E se não forem capazes disso, não deverão ser proibidos de exercer o seu mester entre nós?" (A República – 401b)





O que Platão disse sobre a arte, é que a arte é imitação. Esta afirmação não pode ser uma definição da arte, dado que, entendendo-a como uma definição, identifica a arte com a imitação, mas nem toda a imitação é arte.
A afirmação de Platão é, no melhor dos casos, uma definição parcial, quer dizer, a pressuposição de que a imitação é uma condição necessária para que algo seja arte.
Se Platão tivesse tido um interesse teórico centralizado na arte, quem sabe, teria tratado de especificar uma segunda condição ou um conjunto de condições ulteriores que distinguiriam aquelas imitações que são arte daquelas que não o são. Se tivesse feito esta especificação, então teríamos uma teoria platónica da arte.


A poesia só será permitida se imitar a verdade, a essência, e não se for uma imitação ignorante.


No livro X, Platão faz uma objecção às artes fundamentada na teoria das Ideias. (597a)
Os carpinteiros fazem camas, de todos os tipos, e o pintor ao pintar uma cama, reproduz apenas a sua aparência, vista de um ângulo particular e limitado



Há 3 níveis de realidade: Ideias, a Realidade Sensível e a Arte


-A Arte entendida como imitação, só deveria representar o que é bom e adequado à vida humana.
-Platão defende que o mal, as emoções fortes, e mesmo a representação do vento ou da tempestade, são de evitar.
-Nenhuma acção má pode ser representada em palco, poderia apenas ser narrada, mas não representada, como é o caso da Hybris, crime, na Tragédia

Platão justifica a expulsão dos poetas da cidade com o argumento de estes são excessivos e perigosos, e que seremos influenciados na nossa vida pelas emoções que a arte nos transmite, como a dor, a paixão, o ridículo, etc.:

“Se pensares que a parte da alma que há pouco contínhamos pela força, nos nossos desgostos pessoais, que tem sede de lágrimas e de gemidos em abundância, até se saciar, porque a sua natureza é tal que a leva a ter esses desejos, é , nessas alturas, a parte a que os poetas dão satisfação e regozijo.”
Platão- A República, (606 a)





É com base neste argumento que, Platão defende que somente se devem receber na cidade hinos aos deuses e encómios aos varões honestos e mais nada:

“Se porém, acolheres a Musa aprazível na lírica ou na epopeia, governarão a tua cidade o prazer e a dor, em lugar da lei e do princípio que a comunidade considere, em todas as circunstâncias, o melhor.” Platão, República, (607 a) pág. 475




Platão julga as artes segundo as suas possíveis consequências na vida social.
Na República e nas Leis, Platão condena a Tragédia por razões interessantes:
A Tragédia habitua o espectador a ver no palco ilustres heróis a sofrer, a queixarem-se e a leva que o espectador aprecie e sinta prazer ao ver o sofrimento do outro.

A discussão no livro X começa lembrando que muita da poesia foi rejeitada por ser mimética. (referência ao livro III- a poesia que imita de modo livre é rejeitada)
Seguidamente critica a Tragédia e a Comédia e mesmo a representação dos poemas de Homero, a que chama, o primeiro dos trágicos, porque na representação não há sentido crítico.
Muita poesia lírica não seria permitida na cidade ideal de Platão (mas também não seriam permitidos os oradores, sofistas).



Livro III da República:
Poesia narrativa: Ditirâmbica (relata, lê)
Poesia mimética: Tragédia e Comédia (representa)
Poesia Mista : Mistura as duas anteriores
A maioria da poesia está cheia de mentiras, de imoralidades, ódios, traições e relatos de violência. Deve ser rejeitada! A poesia só deve imitar homens de bem.
A poesia é criticada tendo em vista as suas consequências na educação dos Guardiões! Preocupação Moral


Rejeita em absoluto a Poesia!
Não deve ser executada nem ouvida
Critica a natureza da Mimesis (imita a realidade sensível)
Critica a actividade poética, os poetas não têm conhecimentos verdadeiros, iludem a inteligência dos espectadores
A poesia dirige-se à emoção e não à razão, o lado mais nobre da alma humana
No livro X a Mimesis é rejeitada por causas ontológicas, porque está três graus afastado das Ideias.
O pintor e o poeta são imitadores e não criadores!











Magritte- A Traição das Imagens

“The famous pipe. How people reproached me for it! And yet, could you stuff my pipe? No, it's just a representation, is it not? So if I had written on my picture "This is a pipe," I'd have been lying!” Magritte


Quando Magritte afirma “isto não é um cachimbo”, ele parece querer defender-se de Platão, ao afirmar que não tem a pretensão de imitar um cachimbo, ele está consciente que está a fazer uma mera representação.
Este pintor assume a sua intelectualidade e recusa a acusação de ignorância.

Para Platão, a arte deveria encaixar-se numa relação triádica entre o justo, o belo e o bom. Por ela tem um carácter enganador, falso, não deveria existir na cidade ideal.
A arte seria uma reprodução da coisa q existe por participação na ideia.
Magritte esvazia o recheio de uma realidade nessa obra; a materialidade, o físico é refutado por uma frase. Uma expressão é responsável pela quebra de perspectivas estéticas e visuais: N'est pas. É uma luta contra a tendência ilusória dos olhos, um rompimento da sensibilidade inconsciente.

O pintor e o poeta são imitadores. Assim como o primeiro imita, não aquilo que é verdadeiramente, mas o que aparenta ser, também o poeta faz o mesmo ao imitar todas as coisas sem as conhecer verdadeiramente. o imitador gera ilusão e aparenta conhecer, mesmo não conhecendo o objecto que imita em profundidade.


No início do livro X de A República, Platão expõe que a mimesis pode representar apenas um aspecto, seja ele frontal ou lateral de um objeto, e nunca o objeto como o todo. Sendo assim, a mimesis está ligada do múltiplo sensível, e não ao ser. É portanto contrária à ciência, pois trata do oposto do que é.

Os poetas, tinham por função a manutenção das tradições orais. A educação pela poesia visava manter o ethos e a educação. Platão faz uma analogia entre a atividade mimética dos pintores e os poetas, pois estes tratavam de diversos assuntos diferentes, da virtude e das coisas divinas, sendo mesmo uma espécie de enciclopédia tribal.

Platão conclui que a mimesis dos poetas é uma imitação de um simulacro da virtude.

A poesia imita o homem em todas as suas contradições internas, conflitos, felicidades e infelicidades.
E é ao representá-los que os coloca como verdades aparentes.
Com isso, a poesia dificulta a educação do homem, na medida em que dando à ilusão aparência de verdade, afasta-os do conhecimento, da verdade O poeta é, nas cidades comuns, um “formador de opinião”, já que cria os mitos fundadores da cultura.
Por isso, tal como os pintores, e ainda mais que eles, não têm lugar na cidade Ideal, cuja constituição é regida pela Filosofia.

A actividade poética, quando permite a contradição, faz parte de uma faculdade da alma que é contrária à ciência, pois se baseia no relato físico, sensível, que é alheio à razão.

Logo, mimesis está ligada à pior parte da alma, a parte das paixões, a concupiscência, que não tem em vista nada a de verdadeiro, e foge ao bom senso.

A Arte entendida como imitação, só deveria representar o que é bom e adequado à vida humana
Platão defende que o mal, as emoções fortes, e mesmo a representação do vento ou da tempestade, são de evitar.


Nenhuma acção má podia ser representada em palco, poderia apenas ser narrada, mas não representada, como é o caso da Hybris, crime, na Tragédia

Platão julga as artes segundo as suas possíveis consequências na vida social.

Na República e nas Leis, Platão condena a Tragédia por razões interessantes:
A Tragédia habitua o espectador a ver no palco ilustres heróis a sofrer, e isso leva a que o espectador aprecie e sinta prazer ao ver o sofrimento do outro.

Rejeita em absoluto a Poesia!
Não deve ser executada nem ouvida

Critica a natureza da Mimesis (imita a realidade sensível)
Critica a actividade poética, os poetas não têm conhecimentos verdadeiros, iludem a inteligência dos espectadores A Poesia é imoral, representa os vícios e as fraquezas. Dirige-se à emoção e não à razão, o lado mais nobre da alma humana.
O pintor e o poeta são imitadores ignorantes e não criadores!

Foi o próprio Platão a chamar a atenção para a existência de "um grande combate" (608b), aquele travado entre a razão e a imagem, entre o discurso racional e as artes (miméticas),
o "antigo diferendo entre a filosofia e a poesia" (607b)

A mímesis seria responsabilizada por oferecer apenas ausência, falta, simulacro, aparência e, ao mesmo tempo, através dos seus poderes excessivos, a sua força extraordinária de arrebatamento e atracção para as emoções e não para a razão.

Além de executar suas obras "longe da verdade", a pintura, a poesia, todas artes miméticas de um modo geral, colocam-nos ante a parte em nós mesmos mais distante do bom-senso (603b), do razoável e da lei e, no entanto, insiste Platão, a melhor parte de nós seria aquela que quer seguir a razão, sendo a outra aquela "que nos leva à recordação do sofrimento e aos gemidos e que nunca se sacia deles" (604d).
Essa parte fraca, irracional, propensa à covardia, mostra-se exactamente como material perfeito para a imitação, "ao passo que o carácter sensato e calmo, sempre igual a si mesmo, nem é fácil de imitar nem, quando se imita, é fácil de compreender", sobretudo quando se trata da arte produzida para os festivais dramáticos, em que se apresentavam as tragédias (604d1e).