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06 janeiro 2011

14ª Lição - Nietzsche e a essência do Trágico

Nietzsche procura a origem do fenómeno do Trágico.
Defende que a sua origem está ligada a 2 instintos primordiais que norteiam a arte grega: o apolíneo e o dionisíaco
Analisa a Tragédia do ponto de vista puramente estético, rejeitando qualquer conotação moral, política ou religiosa


  • Apolíneo- forma da individuação, equilíbrio, véu da aparência
  • Dionisíaco- Identificação com o Uno Original, Informe, Vitalidade (poder da Vida)
Os dois princípios são opostos mas complementam-se na perfeição no caso da Tragédia grega
O Objectivo central de A Origem da Tragédia é mostrar que os gregos eram afirmativos (apesar de pessimistas) que os seus instintos não eram negados.

E como faziam isto? Através da arte, da música e do mito, todos em sincronia, mas sobretudo, pela vivência de Apolo e Dionísio que eram manifestações fisiológicas da própria natureza, pela qual o grego se regenerava diante do horror da existência.
A dramatização é a manifestação apolínea de forças dionisíacas presentes na tragédia
Para N. a essência do Trágico vem da música, arte que tem a força de reproduzir o que há de primordial e eterno

  • Diónisos- Deus antigo da loucura, da embriaguês, do êxtase, da metamorfose
  • Apolo- Deus da Arte, da música, da aparência

É no Coro Trágico que N. vê a presença do culto a diónisos, também pela sua ligação à música
nN. afirma que foi ele pp quem descobriu o Trágico, mesmo os gregos o desconheciam, e por isso deixaram a Tragédia morrer…. (Ecce Homo)


Defende 3 Mortes da Tragédia:
n1ª- Morte Euripediana (Dialética Socrática)
n2ª- com o Cristianismo
n3ª- Dialética moderna de Hegel e a opera de Wagner


Ao lado de Sófocles e Ésquilo, Eurípedes é considerado um dos grandes tragediógrafos gregos, o último. 
De acordo com estudiosos do período, estima-se que escreveu cerca de 95 peças trágicas. Porém, somente 18 chegaram até à nossa época.
Eurípedes abordou, nas suas tragédias, questões psicológicas humanas, o que se chamou a tragédia dos vencidos, muitas vezes do ponto de vista feminino. A partir de Eurípedes a tragédia perdeu a sua vitalidade e tornou-se anti-dionisíaca.
N. afirma que a tragédia morreu por suícidio e que a sua morte deixou um enorme vazio.
Eurípedes vulgarizou o género dramático e tornou-o “acessível” ao grande público:
“com ele o homem comum deixou o banco dos espectadores e subiu ao palco”
Eurípedes usou estratégias como: pensamentos frios e sentimentos ardentes e abandonou o apolíneo e o dionisíaco.
Eurípedes, para N., não era um artista mas sim um pensador. Não entendia a tragédia dos seus antecessores, e quis “moraliza-la” e torná-la compreensível.  Assim esmagou-a com o peso da razão…. Para Eurípedes o “entender” estava na raiz de toda a fruição estética. Faz depender a obra de arte da compreensão racional - Encontra em Sócrates um poderoso aliado

A antiga oposição frutífera Apolo/ Diónisos vai-se transformar na estéril oposição Sócrates / Diónisos
Sócrates: modelo de homem teórico que vai preponderar por mais de 24 séculos
Para Sócrates a essência da Beleza é o Belo em si, a sua filosofia é optimista, na medida em que defende a possibilidade Crítica à noção aristotélica de Catarse

Ainda que Aristóteles elogie a tragédia, teria ele razão quanto aos motivos desse elogio? 
Isto é, em relação à acção ou ao efeito da arte (catarse) sobre o público? 
 de atingir a essência das coisas.
A filosofia de Sócrates com a sua ideia de Verdade, de Bem, de perfeição das Ideias, vai dominar a metafísica ocidental e será o elemento constituinte do niilismo

Niilismo- Depreciação desta vida com base em ficções como “o outro mundo”, “mundo das ideias” “mundo da bem-aventurança”

Sócrates é o génio da decadência, o tipo de homem teórico, a quem se contrapõe o tipo de homem trágico
Em Sócrates dá-se a seguinte contradição:
Quando a inteligência racional vacila, Sócrates vai buscar apoio a uma voz mitológica, o daimon….
De tempos a tempos Sócrates escutava o daimon como um remorso na sua alma: “exercita-te na música” (Apologia de Sócrates)
O optimismo socrático invadiu a obra teatral de Eurípedes e expulsou dela o elemento dionisíaco-musical.
“só o sábio é virtuoso”
“Tudo, para ser belo, deve ser racional”
Eurípedes introduz o “Prólogo” em que uma personagem aparece a solo e faz uma explicação do que se passou antes e um resumo do que os espectadores irão ver.
Isto para Nietzsche é escandoloso, pois acaba com o suspanse e com qualquer efeito trágico
Para Sócrates a tragédia não traduz a verdade, por isso constitui um perigo e uma má influência para os mais fracos de espírito.
Platão para ser discípulo de Sócrates teve de negar a poesia, e tentando afastar-se dela e dedicar-se com elevação racional à filosofia, fez apenas um desvio para a ela regressar inconscientemente através do seu género literário riquíssimo: o Diálogo platónico






  •   Crítica à noção aristotélica de Catarse

Ainda que Aristóteles elogie a tragédia, teria ele razão quanto aos motivos desse elogio?
Isto é, em relação à acção ou ao efeito da arte (catarse) sobre o público? 

“Será que a compaixão e o medo acabariam por ser, como quer Aristóteles, purificados  pela tragédia, de tal modo que o auditório voltaria para a casa com o espírito mais mais calmo? Poderiamos dizer então que as histórias de fantasmas nos tornariam menos medrosos e menos supersticiosos?” , pergunta Nietzsche em Humano, demasiadamente humano. 


O desacordo de Nietzsche em relação a Aristóteles sustenta-se sobre o facto de que a catarse não seria eficaz e reforçaria o que ela se propõe a abolir.
Aristóteles teria errado ao pensar que os espectadores se livrariam de seus medos e compaixões, na medida em que esses afectos logo retornariam.
Nietzsche não considera que a experiência catártica seja de fato vivida pelos espectadores do verdadeiro drama trágico
Nem acredita que a catarse constitua a essência deste género teatral.
A experiência da catarse não é vivida pelos espectadores porque ela não é propiciada pela tragédia.
A experiência suscitada pelo verdadeiro drama trágico é inteiramente outra
O grego não fazia uso das tragédias para se divertir de uma vida sombria e entediante, para encontrar ali um entusiasmo que ele não conheceria em outro lugar, ou para purgar ali uma tendência medrosa ou compassiva.
Muito pelo contrário, ele procurava tragédias porque elas davam um grande prazer estético – no sentido de aisthèsis, de sensorialidade, de afectividade
O público grego procurava na tragédia, segundo Nietzsche, uma experiência / vivencia estética; a experiência de sair de si mesmo, não para experimentar uma catarse e permanecer o mesmo, mas para se ver “transformado e transfigurado” por essa experiência. “Nesse estado onde se está ‘fora de si’, nesse estado de êxtase.

05 janeiro 2011

13ª Lição - Aristóteles - Análise de temas da Poética

Poesia é IMITAÇÃO (Mimesis)


1.O que é preciso para que um poema resulte perfeito?
Aristóteles afirma que a epopeia, a tragédia, a ditirâmbica bem como a música da flauta e da cítara, são todas em geral imitações.
Diferem umas das outras porque imitam por meios diferentes, imitam objectos diferentes e por modos diferentes.
Há os que imitam através de cores e figuras – pintura e escultura
A poesia e a música têm em comum o facto de imitarem com o ritmo, a linguagem e a harmonia
Ex. a música usa o ritmo e a harmonia
Ex. a dança usa o ritmo e não a harmonia, e estes imitam com gestos e movimentos os afectos e acções~


2.Os imitadores imitam homens que praticam uma acção, em toda a sua variedade, desde o vício à virtude.
Os poetas imitam homens melhores, piores ou iguais a nós como fazem os pintores.
A imitação varia conforme o objecto imitado
Na poesia, por exemplo, Homero imitou homens superiores
Na Tragédia procura-se imitar homens melhores e na Comédia homens piores
Diferença entre as espécies de poesias imitativas: o modo como se efectua a imitação
Pode ser de forma narrativa, ex. Homero, narra uma história do ponto de vista do narrador, Epopeia
A outra é operando e agindo através do drama, dramaturgia, ex. Tragédia


3.Causas da Poesia:
Há duas causas naturais (físicas) para a poesia:
O imitar é natural ao homem (poeta)
Os homens comprazem-se com o imitado (espectador)
A poesia é um dom natural, faz parte da natureza humana. A poesia nasce do desejo de imitar.
Prova disto é que contemplamos com prazer imagens (representações) de coisas que na realidade contemplaríamos com repugnância e medo. 
Ex. Cadáveres, ou animais ferozes

Um dos motivos é o desejo de aprender, a arte é uma forma de aprendizagem e de conhecimento!
O prazer da contemplação da imagem vem do facto de se saber o que representa (coisa imitada), caso contrário apenas se retira prazer das cores e formas.


Aristóteles ensinando Alexandre o Grande


Aqueles que naturalmente foram propensos à imitação, deram origem à poesia, primeiro das maneiras mais toscas e depois de forma mais cuidada.
Conforme o ânimo de cada poeta, uns imitam acções nobres e outros acções ignóbeis.
Refere Homero como o primeiro grande poeta de género sério, também originando o género dramático e pai da Tragédia.
Aristóteles afirma que Homero traçou as linhas fundamentais para a Comédia, dramatizando o ridículo
A partir de Homero, os poetas começaram a criar poesia segundo os géneros: epopeia, comédia, tragédia. Aos poucos foram-se transformando e aperfeiçoando.
A Tragédia e a Comédia, nasceram do improviso, a 1ª dos solistas do ditirâmbo e a 2ª dos solistas dos cantos fálicos.
Para Aristóteles a Tragédia é uma evolução e dramatização da Epopeia e a Comédia da Paródia. São ambas imitações de homens superiores, em verso. A Epopeia é narrativa e a Tragédia é dramatização.

DEFINIÇÃO de TRAGÉDIA
Tragédia: poesia austera, é para Aristóteles a forma mais estimável de poesia segundo a sua hierarquia
A Tragédia pretende ter a duração máxima de um dia, “período de sol”, Concentração da acção trágica num só dia, para que se atinja a importância de um dia.
Ex. a vida muda de um dia para o outro, passando da felicidade para a infelicidade.
É imitação de uma acção de carácter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada ao longo das suas diversas partes.
Imita-se não através da narração mas através de actores que suscitam o terror e a piedade nos espectadores:

CATARSIS: tem por efeito a purificação dessas emoções.
A Tragédia provoca dois sentimentos contraditórios: por um lado um distanciamento, por outro lado uma identificação com o heroi trágico

A Tragédia é a imitação de uma acção mediante personagens, que agem e se apresentam conforme o seu próprio carácter e pensamento, que por sua vez constituem as causas das acções, dando origem à boa ou má fortuna dos homens.
O Mito: é a composição dos actos, sistema coerente, syndosis
O Carácter: qualidades das personagens
O Pensamento: tudo o que as personagens dizem para manifestar as suas decisões

Faz parte da linguagem ornamentada da Tragédia: o ritmo, a harmonia e o canto numas partes e em outras só o verso (diálogo)
O espectáculo cénico é uma das partes da tragédia, assim como a melopeia (arte de musicar a poesia), e a elocução, forma de declamar, de falar em cena.
O elemento mais importante é o MITO, a trama dos factos, pois a Tragédia é imitação de acções e de vida.
As acções, condicionadas pelo carácter dos personagens, é que conduzem à finalidade da Tragédia


Busto de Aristóteles


Beleza na TRAGÉDIA:
O belo, natural ou artístico, consiste na grandeza e na ordem (justo meio)
Tal como um objecto tem que ter um determinado tamanho para ser apreendido pela visão, também o mito tem de ter princípio, meio e fim
As acções numa tragédia têm de se dar com Verosimilhança e necessidade.
Situação Trágica: o herói trágico

As Tragédias mais belas são as complexas, que imitam casos que suscitem terror e piedade, para conseguir esse efeito trágico é necessário que o herói não seja nem muito bom nem muito mau, mas igual a nós, posição intermediária. O herói cai no infortúnio não por maldade, mas por força de um erro. 
Ex. Édipo

O poeta ou o pintor, tal como qualquer artista que use a imaginação é um imitador, que incide em 3 tipos e objectos: como as coisas são, como parecem que são ou como deveriam ser, através da elocução e de uma série de alterações que são consentidas ao poeta (liberdade artística?)

VIII- Unidade da Acção: unidade histórica e unidade poética
O artista tem de escolher as acções que interessam à obra de forma a que constitua uma unidade coerente

IX- Poesia e História
O poeta não deve narrar o que aconteceu mas sim representar o que poderia ter acontecido, segundo a verosimilhança e a necessidade
A Poesia é mais séria e filosófica do que a História pois refere-se ao universal
Na Tragédia e na Comédia, o poeta tem em vista o universal, os personagens são entidades, tipos

XV – Caracteres – Verosimilhança e Necessidade
Conveniência
Semelhança
Coerência
Tanto na representação de caracteres como no desenrolar da acção tem de haver sempre necessidade e verosimilhança

XVII – Exortações ao Poeta Trágico
O Poeta deve ter em conta o todo da história para evitar contradições, deve por isso colocar-se no lugar do espectador
Os poetas devem experimentar as emoções e gestos das personagens, quanto mais genuinamente o poeta viver a história, mais verosímil é o resultado
Poetar é uma actividade própria de ânimos exaltados e bem dotados, que se deixam arrebatar pelo êxtase (furor)




4. Para Aristóteles um poeta é tanto melhor quanto conseguir apagar-se a si próprio, dando voz às suas personagens de forma verosímil, expressando o seu carácter, seja homem ou mulher (como por exemplo fez muito bem Homero)
Aristóteles defende que um bom argumento deve afastar-se do irracional: “de preferir às coisas possíveis mas incríveis, são as coisas impossíveis mas críveis.”
O poeta ou o pintor, tal como qualquer artista que use a imaginação é um imitador, que incide em 3 tipos e objectos: como as coisas são, como parecem que são ou como deveriam ser, através da elocução e de uma série de alterações que são consentidas ao poeta
É importante que o poeta escolha sempre o verosímil.
Se a sua escolha for o irracional ou o impossível, só o deve escolher quando não tem outra opção (ex. cenas mitológicas – cenas de tragédias com deuses ou heróis)
O poeta deve evitar a contradição, o absurdo, a maldade gratuita, e a quebra das regras da arte

A Tragédia supera a Epopeia
Aristóteles lembra que é vulgar afirmar a superioridade da Epopeia face à Tragédia, uma vez que esta se dirige a um público mais elevado e culto, enquanto a Tragédia se dirige a um público mais rude, tal como toda a arte dramática.
Aristóteles critica esta censura, afirmando que mesmo que assim fosse esta crítica não caberia ao poeta mas sim aos actores
Reconhece que se os actores gesticulam demais caem no ridículo
A Tragédia não precisa de ser dramatizada para atingir o seu objectivo, também pela leitura o pode atingir
Mais ainda a Tragédia supera a Epopeia pois contém tudo o que a Epopeia tem e mais, possui música e espectáculo cénico
Possui grande evidência representativa quer em simples leitura quer em cena



(Fim da análise /resumo da obra)
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MIMESIS:
Mimesis – é natural ao ser humano desde a infância
Imitação, representação
A Mimesis é natural e agradável porque é uma forma de conhecimento, aprendizagem, e o ser humano deseja naturalmente aprender (Metafísica,I.1)
A mimesis artística, por exemplo desenho, traz mais conhecimento sobre o objecto desenhado, ao fazer os seus contornos, do que a sua mera observação.
Mimesis é a imitação de uma acção, é uma selecção activa de representação (enquanto que para Platão era passiva, como se toda a arte fosse como uma fotografia)
Para Aristóteles não se trata da Mimesis de Ideias Universais, mas pode ainda assim revelar algo de universal, que leva à identificação entre os espectadores e a história do herói trágico e seus sentimentos

ESTÉTICA em Aristóteles:
Aristóteles justifica a Poesia pelos seus efeitos éticos e pedagógicos.
Os efeitos éticos da Tragédia descendem dos efeitos artísticos.
Define regras para a poesia que não são moralistas como em Platão
Não há muitas referências ao termo “Beleza” no sentido estético
Aristóteles incluiu a vida artística no tipo de vida contemplativa (Theoria) tal como os filósofos, os cientistas e os políticos
Aristóteles reconhece a autonomia das artes, em especial da Poesia e a sua ligação à Moral e à Verdade
A verdade artística pode ser diferente da realidade e ainda assim ter valor, por vezes o critério da verdade não é aplicável à arte como por exemplo na música ou certos casos de artes visuais
Aristóteles colocou de parte o conceito de Beleza e dedicou-se ao conceito de Arte
Arte, tékné, é uma actividade humana, cuja forma está na alma e tem a sua causa no autor e não nela mesma
A Arte é uma actividade humana que se prende com a Produção
Uma pintura é o produto da pintura
Toda a arte é produção mas nem toda a produção é arte
Tem de ser uma produção consciente e baseada em conhecimentos
A habilidade do artista depende dos seus conhecimentos e do cumprimento das regras da arte, respeito pelos métodos
Aristóteles é o primeiro a associar Arte e Conhecimento
Não só a arte produz conhecimento, como se fundamenta em conhecimentos
A habilidade do artista é alcançada através da prática
Tal como todos os gregos, Aristóteles defende a importância da aprendizagem
Mas a aprendizagem por si só, não ajudará quem não tiver um talento inato
Aristóteles defende que:
A artes ou complementam a natureza naquilo que ela não é capaz de produzir
Ou imitam a natureza naquilo que ela criou


CATARSE;
Partes da Tragédia: é a mimesis de uma acção com certa magnitude, através da linguagem embelezada, e da Catarse das emoções: medo e piedade.
Catarse é um termo enigmático, que Aristóteles não chega a definir totalmente
Na sua obra Política VIII, fala da Catarse provocada pela música e pela poesia, mas não chega a desenvolver o conceito
A Catarse está ligada à vivência de sentimentos como a piedade e o medo, sentimentos despertados pelos caracteres dos personagens.

Catarse é um termo que está associado a “Limpeza”, “Purificação”, “Purgação”, como um termo médico, naturalista que será associado à Psicologia
Catarse é uma clarificação das emoções através do treino das mesmas
Para Aristóteles a vivência destas emoções provocadas pela Tragédia e que levam à Catarse, é saudável e positiva eticamente, ao contrário de Platão, que vê nestas emoções um grande perigo para a educação.
Em Platão o termo Catarsis ocorre em Fedro, 243 a,
Na Política, Aristóteles fala de Catarse como um apaziguamento da alma e como clarificação (conhecimento)
A Catarsis é a clarificação das emoções, ou o conhecimento das mesmas

21 setembro 2010

3ª Lição - Arte/Techne em Homero, Safo e a Beleza na Tragédia

BELEZA

Havia contudo uma clara concepção de beleza e de arte que orientava a sua prática artística.
O conceito de BELEZA – KALOS tinha um significado vasto: significava tudo o que agrada, atraí e provoca admiração
A palavra belo era aplicada a uma multiplicidade de possibilidades variada: Instrumentos humanos, obras de arte, natureza, valores morais, etc…
“O mais justo é o mais belo” Oráculo de Delfos

ARTE - TECHNE

Os Gregos tinham também um significado muito lato para a palavras Arte (Techne)
Aqui estavam incluídas todas as produções humanas, da carpintaria à arquitectura.
O significado de Techne é o de produção humana por oposição à natureza
Tecne era considerada uma actividade mental e por isso um produto do conhecimento
No início não se fazia a distinção entre Artesanato e Belas Artes

Arte e Poesia

Para os gregos antigos, música e poesia eram classificados noutra categoria de actividades, com uma definição mais próxima do que consideramos hoje em dia arte.
Tratava-se de actividades que não resultavam apenas de uma habilidade aprendida, mas de talento pessoal e da inspiração. Além disso, muitas esculturas tinham uma finalidade meramente religiosas. Não eram vistas como obras de arte.

A Poesia era para os gregos uma manifestação artística que não cabia na categoria da Techné, isto é, não depende de canons nem de leis universais, mas sim da Inspiração.
Tecné era uma espécie de produtividade associada a tipos de destreza.
Poesia era uma criação interna que depende da inspiração dada por poderes divinos.

Para os Gregos a Poesia estava acima de todas as artes. Havia Musas para todas os tipos de poesia: lírica, elegíaca, erótica, tragédia, comédia, relacionadas com estas surgiram também musas associadas à música e à dança, artes que sempre estiveram associadas à poesia, mas nunca houve Musas de Artes Visuais.


AS 9 MUSAS

Calíope- Bela voz- Eloqüência-Tabuleta e buril
Kleio- A Proclamadora- História- Pergaminho parcialmente aberto
Erato- Amável- Poesia Lírica- Pequena Lira
Euterpe- A doadora de prazeres- MúsicaFlauta-
Melpômene, A poetisa- TragédiaUma máscara trágica, uma grinalda e uma clava
Polímnia- Polyhymnia- A de muitos hinos- Música Cerimonial (sacra)- Figura velada
Tália,Thaleia- A que faz brotar flores- Comédia- Máscara cómica e coroa de hera ou um bastão
Terpsícore, A rodopiante- DançaLira e plectro
Urânia, A celestial- Astronomia, Globo celestial e compasso

POESIA

Os primeiros prenúncios da Estética fizeram-se sentir na Poesia, antes de qualquer texto teórico ou filosófico
Os primeiros poetas gregos colocaram questões, que no fundo foram mais tarde as grandes questões da Estética.
Ex. Qual a origem da Poesia?; Qual o valor da Poesia?; O discurso poético expressa a Verdade? etc…

PERÍODO MITOLÓGICO- POÉTICO

Período Mitológico- Poético
Período Pré-Socrático, representado culturalmente sobretudo por poetas
Na poesia o adjectivo kalos, surge com frequência. Por ex.:
Hésiodo: “Quem é belo é querido, quem não é belo não é querido”
A “Beleza” inicialmente não tem um estatuto autónomo, surge associada a qualidades morais, como a justiça, ou a bondade


HOMERO

Foi o primeiro grande poeta grego do género épico cuja obra chegou até nós. Teria vivido e morrido no século VIII a.C.
Pelo século VIII a. C. aparecem as epopeias inspiradas na lenda da Guerra de Tróia: a Ilíada e a Odisseia. Segunda o tradição, o seu autor é Homero, poeta cego e nómada cuja actividade literária se baseia nas tradições orais, transmitidas de geração em geração, sobre as expedições gregas a Tróia (no Noroeste da Ásia Menor).

Já antes do início do pensamento filosófico, as riquíssimas obras de Homero (Ilíada e Odisseia) tendem a aproximar os deuses dos homens, num movimento de racionalização do divino. Os deuses homéricos, que viviam no Monte Olimpo, possuíam uma série de características antropomórficas.
A Poesia precede o pensamento racional e estruturado que caracteriza a Filosofia ou a Estética.
Neste período o pensamento dominante é o mitológico e a Poesia é a sua mais elevada expressão
A poesia expõe pela primeira vez na Grécia Antiga o pensamento estético


Em Homero a fonte da Beleza é a natureza (Belo Natural)
Depois da Natureza, refere-se a mulheres e também aos homens
Em Homero há uma ligação entre o Belo e o Útil: Talvez tudo o seja belo seja útil, mas nem tudo o que é útil é belo
ex.: As terras belas não são belas por causa das sementeiras mas por causa da cor das searas

Ex.: “O adolescente é sempre Belo, tudo lhe fica bem, mesmo na morte, tudo nele é belo”
Em Homero o belo aparece associado ao Bem, à Conveniência e ao decoro.
Conveniência: É uma harmonia entre o humano, o meio e os seres

Temas estéticos em Homero

De onde vem a poesia?
Vem das musas, dos Deuses
- Qual é o objectivo da Poesia?
É espalhar a alegria, a fruição e o encanto entre os humanos
-Qual o efeito da poesia nos seres humanos?
A poesia é como um feitiço, um encantamento
-Para Homero a poesia não é vista como uma arte autónoma, mas como um privilégio que vem dos deuses.

Porque é que Homero faz questão de atribuir às Musas e não a si próprio a capacidade de produzir o memorável?
Homero relata-o a lenda, do poeta Támiris, o Trácio. Atribuindo a si próprio a genialidade dos seus poemas, Támiris desafiou as Musas para um duelo. Tendo sido derrotado, as Musas lhe tomaram o talento e a visão.
O poeta faz questão de depender das Musas porque tal associação o enobrece.
Ele considera-se o discípulo e o favorito dos deuses. Assim, de certo modo, é como se deles descendesse.
Homero faz Ulisses declarar que "entre todos os homens da terra, os poetas merecem honra e respeito, pois a eles a Musa, que ama a raça dos poetas, ensinou".


•Com isso, o poeta conquista a liberdade de cantar, nas palavras de Telémaco, na "Odisseia", "por onde quer que a mente o conduza".
•Se não tivesse sido atribuída origem divina às palavras do poeta, elas jamais teriam conquistado semelhante liberdade.
Quem legitima a liberdade do poeta são as Musas, mas quem garante a existência das Musas é o poeta.
A evidência de que as Musas possuem o poeta é sugerida pelos versos nos quais o poeta Teógnis afirma que as Musas cantavam "um belo poema: o belo é nosso, o não belo não é nosso".


A beleza dos poemas é prova de sua origem divina, e sua origem divina legitima a liberdade do poeta.
Por direito, seus poemas são belos por serem divinos; de facto, porém, são divinos por serem belos.
O objectivo do poeta não é fazer o poema "verdadeiro", mas fazer, por onde quer que – sua Musa – o leve, o poema inesquecivelmente belo, o poema memorável pela sua beleza; e a primeira exigência do seu público não é escutar um poema "verdadeiro", mas um poema cuja origem se encontre na dimensão da divindade ou seja, um poema que lhe dê prazer estético, pois o "cantor divino" é, como se lê na "Odisseia", aquele que "delicia ao cantar".
Uma vez que o puro esplendor e beleza do poema constitui a prova da sua autoria divina, nele as considerações morais ou religiosas estão subordinadas a considerações estéticas.

Para Homero os poetas tinham uma tarefa divina:
“A sabedoria dos poetas vem das Musas” Íliada, II, 484
“A poesia é mais durável que a vida” Odisseia, VIII, 578

Poesia Lírica

A Poesia lírica nasceu na Grécia antiga acompanhada de instrumentos musicais como a Lira e a Flauta, nos versos de Safo e Alceu
Há poetas líricos Eróticos, Heróicos e Elegíacos

Com os poetas líricos a beleza vai-se tornando individual e humana
Ex. A Beleza é a juventude” Safo
A beleza aplica-se também ao som da harpa, da lira e à arte no geral enquanto produto humano.
Para os poetas líricos há uma antropomorfização da Beleza. Por ex. As paisagens tornam-se estados de alma




SAFO

A Poesia lírica nasceu na Grécia antiga acompanhada de instrumentos musicais como a Lira e a Flauta.
Safo foi uma poetiza grega que viveu no ano 600 a. C..viveu na cidade Lesbos de Mitilene, acivo centro cultural no século VII a.C.. Nascida algures entre 630 e 612 a.C., foi muito respeitada e apreciada durante a Antiguidade, sendo considerada "a décima musa“ por Platão.
Safo era comparada a Homero em plena Antiguidade


Still holding in that fearful leap
(By her loved lyre) into the deep
And dying, quenched the fatal fire
At once, of both her heart and lyre”
Thomas Moore, Evenings in Greece,1826

Ainda em queda nesse salto temeroso
(Pela sua amada lira) dentro das profundezas
E ao morrer, apagou o fogo fatal
do seu coração e da sua lira, por um único golpe.


A sua poesia, devido ao conteúdo erótico, sofreu censura na Idade Média por parte dos monges copistas,que mandaram queimar a sua obra e o que restou foram escassos fragmentos.
Contavam que se tinha suicidado saltando de um precipício na ilha de Leucas, apaixonada pelo marinheiro Faonte - facto que é descrito também em Menandro, Estrabão e Ovídio.
Não há consenso de que isto seja verdade. Escritos sobreviventes atestam que Safo teria atingindo a velhice, e o certo é que não se sabe como nem quando ela morreu, sendo considerada por alguns a maior de todas as poetisas.


“Um homem belo, só o é na aparência. O homem bom será igualmente belo.”
“A morte é um mal. Foi assim que os deuses o entenderam; de contrário, seriam mortais”.
"Safo era maravilhosa pois em todos os tempos que temos conhecimento não sei de outra mulher que a ela se tenha comparado, ainda que de leve, em matéria de talento poético." Estrebão

SAFO - Citações


Sappho de Charles Mengin 1877


Para Anactória
A mais bela coisa deste mundo para alguns são soldados a marchar, para outros uma frota; para mim é a minha bem-querida.
Fácil é dá-lo a compreender a todos: Helena, a sem igual em formosura, achou que o destruidor da honra de Tróia era o melhor dos homens,
e assim não se deteve a cogitarem sua filha nem nos pais queridos: o Amor a seduziu e longe a fez ceder o coração.
Dobrar mulher não custa, se ela pensa por alto no que é próximo e querido. Oh não me esqueças, Anactória, nem aquela que partiu:
prefiro o doce ruído de seus passos e o brilho de seu rosto a ver os carrose os soldados da Lídia combatendo cobertos de armadura.

“Um homem belo, só o é na aparência. O homem bom será igualmente belo.”
“A morte é um mal. Foi assim que os deuses o entenderam; de contrário, seriam mortais”.
"Safo era maravilhosa pois em todos os tempos que temos conhecimento não sei de outra mulher que a ela se tenha comparado, ainda que de leve, em matéria de talento poético." Estrebão






A Beleza na Tragédia

A Tragédia é o apogeu do pensamento pessimista.
Representação da angústia e do desvario humano bem como do espírito da justiça e vitória da Razão.
Apolo / Diónisos
Racional e Irracional
A literatura grega reúne três grandes tragediografos, cujos trabalhos ainda existem: Ésquilo, Sófocles, Eurípedes
Ésquilo: vulnerabilidade do humano: o Prometeu Agrilhoado
Sófocles: O homem é fraco e submetido à necessidade. Ex. O Rei Édipo
Sófocles: Celebra a grandeza moral do ser humano.
Ex. “Nada é mais belo do que morrer pelo nosso dever” Antígona

A Tragédia desvela o drama da humanidade: o ser humano face às forças do universo que ele não domina
O sofrimento humano vivido com dignidade
Aristóteles define a Tragédia como uma representação de uma Acção grave com uma certa extensão e completa, com actores a agir e não a narrar, a qual inspira pena e terror, operando a catarse dessas emoções.