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06 maio 2011

2ºS. 9ª Lição- Talento Inato, F. Holanda, Miguel Angelo, Zuccaro

No Da Pintura Antiga, no capítulo 7º Que tal deve ser o Pintor, Holanda faz uma definição de influência platónica do Pintor. Holanda afirma que não é aprendendo que um homem se pode tornar pintor. A pintura é uma ciência que só se dominará na perfeição se já a trouxermos de nascimento, isto é, de forma inata:

“E não somente para ser perfeito e consumado em tal ciência e tão profunda lhe convém com uma nova graça nascer de Deus e de natural índole raríssima; (...) por que para digno de ser pintor mester há nascer pintor, pois o pintar não se aprende, mas somente se pode crer que com o mesmo homem nasce.”[PA, pág. 31]
Por isso, para se ser artista não basta querer ser, nem basta apenas aprender. Nem cem anos de aprendizagem fariam de um homem sem talento natural, um verdadeiro pintor:
“E contudo um grande engenho (...) e natural vale mais que todo trabalho do mundo; mas nem por isso nascer com ele somente basta, mas há-de logo de ajudar a arte e a ciência e o costume; sem o qual o mór engenho dos homens não teria algum vigor.” [PA, pág. 31]

Apesar de a originalidade do talento constituir o aspecto mais essencial, não basta ser génio. Holanda defende que o talento existe como uma espécie de saber em potência, que para ser actualizado, carece de estudo e trabalho.





Miguel Ângelo

A ideia de que a posição artística se aproxima da mania platónica ou do Furor Divinus, a defesa da precedência da ideia na concepção da obra de arte, como momento privilegiado da criação artística, bem como a ideia de que o artista tem uma personalidade especial, entre o excêntrico, o melancólico e o genial, lançam as bases para a tese de que o artista tem uma personalidade própria e que é um ser superior que sobressai entre o vulgo. Diz Holanda que o artista com o seu poder criador, concebe silenciosamente uma imagem interior da obra que há-de criar (a ideia). Esta questão está bem presente no seguinte poema de Miguel Ângelo:

‘As my soul, looking through the eyes, draws near to beauty as I first saw it, the inner image grows, while the others recedes, as though shrinkingly and of no acount’[Anthony Blunt – Artistic Theory, 1450-1600, pág, 63]

"Que ninguém jamais fique admirado do amor de Miguel Ângelo pela solidão, apaixonado como estava pela sua arte que exigia o dom de si próprio e a meditação, ele era, como é exigido para quem mergulha nos estudos, forçado a fugir da companhia. Quem fique preso às questões da arte nunca está só e sem razões de reflexão. Se lhe deram um carácter estranho e singular, foi errado, já que um bom trabalho artístico requer uma distância perante os problemas fastidiosos, o génio exige reflexão e solidão propícia, sem deixar o espírito perder-se" [Vasari - Vida de Miguel Ângelo]

Para Holanda, o artista não deve imitar ninguém, deve apenas seguir o seu engenho e talento natural. Está bem presente em Holanda, a ideia de uma espécie de inspiração divina ou de furor divinus, o que implica também, uma individualidade e liberdade face à regra:
“For Michelangelo, on the other hand, the artist, though directly inspired by nature, must make what he sees in nature conform to an ideal standard in his own mind.” [idem, pag. 64]


Esta exigência de originalidade, é também uma exigência de solidão. A individualidade do artista é marcada por uma independência face à comunidade artística que o rodeia e o seu espírito, para não se corromper, permanece isolado, numa espécie de melancolia produtiva.
A emergência do “artista saturnino”, coincide com a influência dos conceitos e ideias desenvolvidos na Academia de Caredgi, nos pintores e escultores, conscientes da sua dignidade liberal e intelectual. A ideia de que o génio criador é um ser melancólico, nunca mais deixará de exercer influência na vida artística ao longo da história, e será um conceito que juntamente com a excentricidade, estará sempre a par da exaltação da personalidade artística.
A personalidade do artista é pouco social, pouco dada a conversações, é genial porque é um dom dado por Deus, e é um grave carrego, não só porque é uma actividade séria e intelectual, mas porque é melancólica.




No séc. XV e XVI, o reconhecimento de um estatuto do artista, anda a par da exaltação de uma personalidade melancolicó-saturnina, que tem em Miguel Ângelo o seu melhor exemplo. O artista melancólico, não é propriamente o perfeito cortesão, como Rafael. Miguel Ângelo é quase um anti-cortesão, na sua personalidade difícil e associal.
A independência face à regra e o seu individualismo artístico, criaram a ideia no séc. XVI que Rafael, pela seu espírito equilibrado, pelo seu talento universal, pela sua capacidade de agradar a todos e de obedecer às regras que sustentavam a arte, era um excelente pintor, enquanto Miguel Ângelo era um génio extravagante, a quem faltava a qualidade da graça e da moderação.
Os artistas do século XVI foram marcados pela atmosfera neoplatónica que se fazia sentir, como uma espécie de cultura em pano de fundo:
“But among all his contemporaries Michelangelo was the only one who adopted neoplatonism not in certain aspects but in its entirely, and not as a convincing philosophical system, let alone as the fashion of the day, but as a methaphysical justification of his own self.”[1]~





Miguel Ângelo seria um dos poucos artistas que frequentou a Academia de Caredgi e revela que assumiu o pensamento neoplatónico que circulava na Academia, tanto na sua poesia como na sua obra artística, como é bem visível no túmulo dos Médicis ou nas estátuas Lia e Raquel ou correspondentemente Vida Activa e Vida Comtemplativa (túmulo de Júlio II): [1] Erwin Panofsky- Studies in Iconology- Humanistic themes in art of the Renaissance. Colorado, Oxford: Icon Editions, Westview Press, s.d., pág. 180
Para este génio-melancólico, o resultado do devir da inspiração e o furor divinos, exercem o seu poder na produção artística em detrimento da perfeição das regras da arte. O artista, diz-nos Holanda, pelo seu poder de criação tem uma função divina, comparada ao próprio Deus. O desenvolvimento desta ideia neoplatónica permite colocar a pintura e o desenho no topo das actividades humanas, como as mais nobres de todas.
A noção de Furor divino, vem ao encontro desta ideia. O artista, através do seu génio criador, está mais perto de Deus, e por isso a experiência transcendental do Furor divino surge como uma consequência natural da sua capacidade de criação, tão próxima da divina. A definição de Marsilio Ficino de furor divino, certamente conhecida de Holanda, poderá lançar luz sobre esta expressão:
(...)uma espécie de iluminação da alma, através da qual Deus revela como num relâmpago no mundo inferior e a atira para o mundo superior”.[1] André Chastel- Marsile Ficin et lárt. Genéve: Librairie E. Droz; Lille: Librairie R. Giard, 1954, pág. 169 – citação tirada do séptimo discurso do comentário de Ficino ao Banquete de Platão. (VII, 13-14)


E no entanto, é este modelo, de artista saturnino, melancólico, excepcional, que vai conferir ao artista a ideia de génio e de uma capacidade intelectual e espiritual, afastada das coisas terrenas, que dominará o séc. XVI e sustentará os pilares da ideologia Maneirista.
O artista é um ser de excepção, e não deve estar sujeito às regras da sociabilidade a que são obrigados os comuns dos mortais. Não deixa de ser curioso que Holanda defina a personalidade artística, totalmente à luz da de Miguel Ângelo, que na sua rebeldia, não se submetia aos cânones cortesãos:

“E logo de seu mesmo buscará a lição de poesia e uma nas letras que facilmente como ao Senhor se entregarão, sem as quais não pode seguir a difícil perfeição; (...)
Está bem ao raro desenhador ter algumas liberdades e condições, assim no conversar sem comprimento, como em outras coisas livres que lhe pede o seu cuidado e a ocupação do seu intento, as quais coisas não são lícitas a outro homem ocioso.” [PA, pág. 31]

“E não somente para ser perfeito e consumado em tal ciência ou arte neste mundo para sua perfeição lhe foi necessário trazer a origem e natural de seu nascimento, sem dúvida nenhuma esta deve ser a arte da pintura.”

“E contudo um grande engenho e natural vale mais que todo o trabalho do mundo; mas nem por isso nascer com ele somente basta…”
PA, pág. 30-31




Miguel Ângelo refere-se ainda à condição do artista, nos Diálogos em Roma, como aquela que lhe permite preferir servir o Papa, antes com a arte do que com a companhia, e afirma ainda que conversa com o Papa livremente e com algum descuido na apresentação.
E no entanto, diz ele, “não me matam por isso, antes me têm dado a vida.” [DR, pág. 28].
Miguel Ângelo refere-se à condição artística como um grave carrego[DR, pág. 28] que se assume aqui, como a legitimação de um estatuto que parece tudo justificar.
Um pouco mais adiante, afirma que o artista, por ser tão excepcional, deverá ter direito a algumas liberdades e condições:
“ (...) assim no conversar sem cumprimento, como em outras coisas livres que lhe pede o seu cuidado e a ocupação do seu intento, as quais coisas não são lícitas a outro homem ocioso.”[DR, pág. 31]



Holanda não fala explicitamente em Melancolia, ou numa personalidade saturnina, mas a personalidade artística que defende, como ser superior e de excepção vem ao encontro da noção de Melancolia em muitos aspectos.
Miguel Ângelo encerra o protótipo desta teoria do pintor, pelo seu estatuto e pela complexidade da sua personalidade que vai, quer ao encontro da “mania” platónica e do Furor Divino, quer da noção de Melancolia em Aristóteles, que Holanda tão bem descreve nesta passagem:
(...) e se ser pudesse pôr-se o estilo na mão e fazê-la com os olhos tapados, melhor seria, por não perder aquele divino furor e imagem que na fantasia leva.[PA, pág. 43]

Miguel Ângelo é o exemplo máximo aos olhos de Holanda, deste protótipo do artista associal, excêntrico, sensível e que vive o fascínio pelo tenebroso e a percepção da realidade para além das aparências e do ponto de vista comum, e é o símbolo deste génio saturnino que marca ideológica e culturalmente o séc. XVI:

“(...) M. Ângelo foi constantíssimo, que nunca se deixou aniquilar dos comuns e fracos entendimentos dos imperitos, se não eram conformes à sua primeira ideia e ao próprio natural (...), pintando mais como grande mestre, que como covarde e fraco pintor, tendo mais dever com a imortalidade das coisas, que com fazer a vontade a quem o não entende.” [PA, pág. 36]






Miguel Ângelo simboliza para Holanda o mito do artista que não se submete a nenhuma regra, a não ser à sua própria intuição estética, desprezando condicionalismos de índole social, relativamente até aos seus mecenas:
Miguel Ângelo é já uma encarnação consciente do super-homem nietzscheano, que cada uma das suas figuras exprime plasticamente.
O próprio Miguel Ângelo passa por grandes mudanças na sua vida. De jovem artista fascinado com o ideal da beleza, passa na velhice a estar inteiramente dominado por valores cristãos, sagrados e vincadamente místicos.
“The strong physical passion of the early love poems has given place to doctrines which make love the contemplation of na incorporeal beauty.”[1]
Pode dizer-se que a sua personalidade, tal como a de Francisco de Holanda, também se foi tornando cada vez mais saturnina com o passar do tempo:
“It is hard to believe that the Humanist creator of the early Bacchus or even of the Sistine ceiling would one day pray to renounce the arts from feelings of Christian piety.”[2]
[1] Anthony Blunt, Artistic Theory in Italy- 1450-1600. pág. 70
[2] Idem, pág. 80


É possível até encontrar uma certa semelhança com a evolução do próprio Holanda, que na velhice, exilado no seu monte em Sintra, parece ter renunciado às musas da beleza e aos ideais do classicismo/humanismo, em troca de uma fé mística e de uma entrega aos mais puros valores cristãos, que caracteriza a época da Contra Reforma.
Miguel Ângelo e Holanda, são figuras que pertencem ao fim do Renascimento, mas contemporâneos dos primeiros passos da Contra-Reforma.
As mudanças ideológicas por que passaram correspondem também a mudanças históricas e pode dizer-se que preparam terreno para a implementação da ideologia maneirista.







A Criação de Adão- Miguel Ângelo




A Criação de Adão é um fresco de 280 cm x 570 cm, pintado por Miguel Angelo por volta de 1511, que figura no tecto da Capela Sistina. A cena representa um episódio do Livro do Génesis no qual Deus cria o primeiro homem: Adão.
Deus é representado como um ancião de barbas envolto num manto que partilha com alguns anjos.
O seu braço esquerdo está abraçado a uma figura feminina, que foi interpretada como Eva – que ainda não foi criada e, figuradamente, espera no céu para ganhar uma forma humana. O braço direito de Deus está esticado para criar Adão, o qual esta com o braço esquerdo estendido. A composição é obviamente artística e não literal, já que Adão é capaz de alcançar Deus mesmo antes de ter ganho vida. Pela mesma razão, Eva é vista representada antes de sua própria criação. Alusão à noção neoplatónica de “imagem interior”, noção que representa a faculdade da imaginação, central para o poder criador do artista.
Representação do poder criador divino (animante)
As posições de Deus e Adão, a pintura do braço direito de Deus e esquerdo de Adão são quase idênticas e representam o facto de que, como diz o Génesis 1:27, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
(O dedo indicador de Adão, a mais famosa representação do fresco, não é de facto um trabalho de Miguel Ângelo. Este foi danificado durante um desabamento em meados do século XVI e foi pintado por um restaurador do Vaticano.)
contraposição ao do criador.






DESEGNO - Zuccaro


Esta noção de Desegno tal como Holanda a define pode ser relacionada com a interessante análise etimológica que faz Frederico Zuccaro da palavra Disegno.
Para Zuccaro a palavra Disegno prende-se com o nome de Deus: as duas primeiras e a última letras da palavra Disegno constituem a palavra Dio.

Frederico Zuccaro- “Le Mithe de la Peinture” in La Peinture, Texts Essenciels, Paris: La Rousse- Bordas, 1997, pág. 34

Já Vasari tinha desenvolvido o conceito de desenho enquanto actividade mental e enquanto princípio unificador de todas as artes.
Zuccaro defende que o Desenho é o princípio fundamental de todo o pensamento.
Ele baseia a sua tese na autoridade de Aristóteles, que defende que a mente forma imagens directamente das impressões sensíveis. Estas imagens são a base de todo o tipo de pensamento, isto é, o Desenho.
O Desenho é a Ideia de todas as coisas.
“É a imagem e a similitude de Deus em nós”
Zuccaro pretende mostrar que todos os pensamentos especulativos e disciplinas liberais bem como todas as actividades humanas derivam do desenho.
Zuccaro termina o seu tratado definindo uma hierarquia de conhecimentos, na qual as artes visuais ocupam a posição mais elevada.

Para Zuccaro, tal como para Holanda, a palavra Disegno denota a ressonância e a imagem de Deus na nossa alma:
"DI , SEGN , O: do nothing further that denotes the sign of the divine image and likeness in the soul. "
Em Lamento della Pittura (1605), critica o pobre estado das artes, sobretudo daqueles pintores que apenas querem agradar ao “olho” e negligenciam o lado intelectual da arte.
Zucarro é neoplatónico: dá prioridade à Ideia, à imagem interior e não à cópia do mundo exterior.

22 fevereiro 2011

2ºS. 2ª Lição - Marsilio Ficino, Saturnismo



Marsílio Ficino - filósofo, físico e padre, humanista florentino. Filho do médico dos poderosos Médicis de Florença, desde a sua juventude tornou-se amigo e manteve estreita relação intelectual com Cosme de Médicis, um dos homens mais ricos da Europa daquela época e grande entusiasta da cultura grega. Cosme escolheu Ficino para estudar e difundir a tradição platónica em Florença. Para tanto, doou-lhe uma "villa" em Careggi, na parte norte de Florença, para ali sediar a academia platónica, ou antes, neoplatónica florentina, inspirada na antiga Academia de Platão.
Trouxe o Platonismo para o Cristianismo, característica essencial da Filosofia Neoplatónica.


No caso da Melancolia, Ficino fundiu o tema platónico da inspiração divina com a disposição melancólica descrita por Aristóteles.


Atribuíram a este humor o mesmo valor que Aristóteles: seria próprio de heróis, poetas e grandes homens e a sua manifestação geraria o êxtase que leva à sabedoria, à revelação, do belo, à criatividade. 

O humanista Marsilio Ficino, foi responsável pela tradução, estudo e interpretação de vários manuscritos antigos, entre eles o Problema XXX de Aristóteles



Ficino acreditava que a Bilis Negra encaminhava as pessoas para uma vida intelectual e criativa.
  • (...)  Confirmo agora no livro Problemata, que Aristóteles disse que todos os homens com alguma habilidade, são melancólicos. Ele confirmou o que declarou Platão no Livro do Conhecimento e também Demócrito, quando reconheceu nos dotados de mente privilegiada, a condução à loucura. Parece que Platão em “Phaedrus” reafirma que não há poesia sem loucura (...) Ficino, De Vita Triplici

A Bilis Negra em associação com a influência de Saturno, o mais alto dos planetas, conduziria à melancolia e a Ficino era um aficionado da Astrologia, pseudo ciência que levava muito a sério, chegando mesmo a consultar os horóscopos antes de qualquer decisão importante. A astrologia era um assunto que estava na moda no Renascimento.

“Saturno, manifesta-se em mim através da melancolia desde o início, situado perto do meu ascendente Aquário, é influenciado por Júpiter. A influência de Jupiter em Caranguejo, ofereceu-me talvez alguma resistência à minha natureza melancólica.”
Ficino (carta dirigida a Cavalcanti)

Para Ficino, os astros têm um valor simbólico, na medida em que os astros seriam a manifestação visível no céu, da realidade invisível e interior do humano.
Ficino pretendia usar a astrologia como um instrumento para superar as vicissitudes marcadas pelo nascimento de cada um. Nascido com o ascendente de Saturno, ele sofria como consequência, de Melancolia, que estava associada a Saturno, o planeta maléfico

- A sua doutrina astrológica postulava que a alma possuía três faculdades distintas que formavam um todo hierarquicamente ordenado: a imaginação, a razão discursiva e a razão intuitiva.
- Somente as faculdades inferiores do homem estavam sujeitas, até certo ponto, à influência das qualidades astrais.
- As faculdades da alma, em particular a razão, era essencialmente livre.


Marsilio Ficino, nascido sob o signo de Saturno, desde sempre sofreu de Melancolia.
Interpretou a sua melancolia crónica numa perspectiva positiva, ao associar Melancolia à Criatividade
Filho de um médico e com formação nessa área, Ficino defendia que a condição melancólica é a pior de que uma pessoa pode sofrer.





Segundo os gregos, o excesso de bilis negra podia levar uma pessoa a estar predisposta aos piores males: loucura, isolamento, depressão, irritabilidade, etc.
Apesar de Aristóteles ter associado a Bilis negra às pessoas de excepção (génios), ainda assim a tradição romana e medieval fez prevalecer uma tendência negativa relativamente à melancolia, associada sempre a uma doença unicamente tratável através de curas dolorosas, como sangrias, uso de sanguessugas, chás purgantes, sobreexposição à humidade, etc.



Quando Ficino travou conhecimento com o texto “Problemas” de Aristóteles, confirmou aquilo de que já suspeitava!
Percebeu que a melancolia não é uma doença, mas essencial para a saúde mental do pensador e do artista, uma espécie de graça intelectual.
“Tentarei encontrar uma saída, a melancolia procede de Saturno, e digo com Aristóteles, que é um dom singular e divino” (Opera, 732)



Esta tradição da melancolia negativa é a que prevalece até aos nossas dias. Assim instalada a melancolia, o melhor a fazer é retirá-la do nosso organismo.
Do ópio, ao láudano, passando pelo Prozac, tudo se tem tentado para erradicar o mal da melancolia das nossas vidas.
Ficino foi dos poucos que tentou encontrar uma forma positiva de tratar a melancolia, ele acreditava que a melancolia estava presente na predisposição para a reflexão filosófica.








A conexão estreita entre Melancolia e Saturno, juntamente com as ligações entre a disposição sanguínea e Júpiter, a colérica e Marte, a fleumática e a lua, parece ter sido estabelecida, pela primeira vez, por escritores árabes, século IX.
Al-Kindt distingue as quatro partes do círculo do dia segundo os quatro humores ou temperamentos. Os nascidos no primeiro quadrante, desde o ascendente até o meio-céu, são sanguíneos(Júpiter); os do segundo, são coléricos (Marte), os do terceiro, melancólicos (Saturno) e os do quarto quadrante são os fleumáticos (Lua).

Há uma correlação entre as características do temperamento da Bilis Negra, frio e seco, e as que se acreditava serem do Planeta Saturno.
Tinham em comum a tendência para a depressão, vida solitária, adivinhação e sobretudo partilhavam o modo de acção: a ambivalência.

Para os neoplatónicos os Astros eram presenças fixas do mundo celeste, que estão mais próximos do Divino do que do mundo material.
Por isso, mesmo Saturno, considerado o mais terrível dos planetas, acaba por ter uma natureza pura.
Há uma interpretação positiva da influencia astral. Saturno é a figura astrológica mais exaltada considerada como o pai de todos os astros, e equivalente ao Intelecto (Nous)


“Pode parecer irreverência dizer que Zeus é filho de Kronos, mas a verdade é q este é possuidor de um intelecto poderoso (…) uma mente pura e incontaminada.” Platão, Crátilo 396b


A melancolia pode manifestar-se como depressão ou loucura, como genialidade, furor divino…
A vida contemplativa só existe a partir de um certo grau de melancolia. 
O renascimento reconhece Saturno como senhor da melancolia e patrono da contemplação.
Para viver a melancolia, é necessário acompanhar-se de paz, quietude, silêncio e ócio. Essa é a melancolia contemplativa, produtiva, companheira de todo o homem que atingiu a grandeza.





Marcilio Ficino em De Vita Triplici, reflecte sobre o Problema XXX de Aristóteles, acrescentando-lhe um aspecto astrológico: a questão do planeta Saturno.
Os neoplatónicos fazem uma espécie de glorificação do planeta Saturno, que legitimam através de uma passagem do Crátilo de Platão, em que este se refere a Kronos-Saturno de forma mitológica, dizendo que Kronos tem um intelecto poderoso, uma mente pura e incontaminada.

Para os neoplatónicos, os artistas eram aqueles que nasciam sob o signo de Saturno. Eram afortunados, mas com uma potencialidade para o bem ou para o mal, porque Saturno era o deus dos Contrários.
Para Ficino, o poder e a ambivalência de Saturno, definiriam sempre espíritos excepcionais, com tendência para o sofrimento e solidão:

Poderíamos caracterizar Saturno como um deus de extremos. Por um lado gera inúmeros filhos, e por outro está condenado à eterna esterilidade; por um lado é um monstro capaz de ser vencido pela astúcia mais vulgar, e por outro é o deus antigo e sábio, venerado como a inteligência suprema, como πρσμηυεμς (previdente) e πρσμάντισς (profético)...
É nessa polarização imanente da concepção de Cronos que o carácter específico da concepção astrológica de Saturno encontra a sua explicação definitiva – esse carácter, em última análise, é determinado por um dualismo intenso e fundamental.” O dualismo que subjaz à melancolia!

Ficino cita autores como Platão, Demócrito e Aristóteles, para explicar que os intelectuais excepcionais são melancólicos. Ele diz q estas pessoas estão naturalmente predispostas à loucura e à exaltação (extases).
Cita Platão, no Fedro, que diz que sem loucura podemos bater às portas da Poesia em vão.
Este tipo de loucura é apenas incitada nos melancólicos, pois apenas nestes ela é produtiva.


Quando se une a Melancolia a Saturno, um planeta por natureza pessimista, é difícil acrescentar alguma coisa positiva…
Ficino associa à Melancolia um tipo de personalidade especial e propenso à contemplação filosófica e à criação artística.
É por esta via que a Melancolia e Saturno se tornam uma influência positiva, mas apenas neste tipo de pessoas excepcionais.
No Primeiro Livro De Vita Triplici, este afirma que os pensadores e filósofos são por natureza de temperamento melancólico e estão sujeitos à influência de Saturno
Alguém que não reconhece esta condição, tornar-se-á ainda mais miserável. Para superar a Melancolia e torná-a criativa é preciso reconhece-la e adquir conhecimento dela.
Tem de haver um esforço espiritual e intelectual para minimizar aos sofrimentos da melancolia. O “lado saudável” da melancolia, virá da sua relação com o “furor divino”, alusão à loucura das musas descrita por Platão.
Só quem sofre de melancolia, tem em si um grau de excepcionalidade, que lhe permite entrar numa espécie de êxtase.
Ficino descreve esse êxtase como uma espécie de sonho ou de ardor amoroso. É também entendido como êxtase criativo, como uma visão interior que desperta a criatividade.
O saturnismo, não é uma doença, mas antes o indício duma vocação superior. O tipo saturnino é definido como tendo um temperamento apto à contemplação.




Em Florença, na elite intelectual, ter uma personalidade melancólica é um sinal de dignidade humana, de uma vocação superior, associada à reflexão, à filosofia e à criatividade. O criador, o génio, o herói reconhece-se sob o signo de Saturno. Há uma dupla ambiguidade nesta personalidade que varia entre a paralisia e a criação activa.
Há também uma contradição angustiante e profundamente inquietante: a do génio e da besta, da elevação e do rebaixamento, que lembra a célebre frase de Aristóteles em que este afirma, referindo-se à política e à vida em sociedade, que o homem solitário ou é um deus ou uma besta.


L’astre du malher est aussi du génie.

A sua visão do "carácter saturnino" é a própria da melancolia do homem de génio, enquadrando-se ainda na definição do místico neo-platónico cristão.
Ficino distingue dois tipos de melancolia, uma própria do brilhantismo da mente (melancholia naturalis), outra da doença maníaco-depressiva (melancholia adusta-insania).

Agrippa von Nettersheim em DE OCCULTA PHILOSOPHIA, que circulava em manuscrito já desde 1510. Ainda que influenciado por Ficino, vai mais longe na clarificação dos tipos de melancolia, referindo a "Melancholia Imaginativa", uma condição própria dos artistas, arquitectos e artesãos...



Artigos relevantes disponíveis na internet:
- http://pt.scribd.com/doc/30879969/Klibansky-Raymond-Panofsky-Erwin-Saxl-Fritz-1964-Saturn-and-Melancholy-Studies-in-the-history-of-national-philosophy-religion-and-art
- http://espacoastrologico.org/sob-o-signo-da-iconologia-uma-exploracao-do-livro-saturno-e-a-melancolia/
- http://con-fusioni.jimdo.com/filosofia-e-scienze-umane/ficino-la-renovatio-della-melanconia/